Desabafos & DiscussõesLuiza Moura

O lugar onde deixamos o amor para trás

Perdoem-me a intromissão neste espaço que me foi emprestado para disparar umas balas fugidias de alegria e vontade de dançar um baile de palavras safadas mas eu quero acreditar que um tipo com ganas de criador não pode nem deve ficar atrás. Avancemos então meus bravos do pelotão! Vivemos tempos estranhos, tempos em que o tempo parece ter parado sem que o mundo conseguisse acompanhar a finta que a vida (ou o perigo que ela acabe) nos pregou pelo mais pequeno dos seres. No Brasil diz-se que tamanho não é documento e parece que é mesmo assim.

Mas o tempo não parou. Galgou-nos as rotinas, saltou-nos para as costas e arranhou-nos a vontade. E nós agarrámos em pequenas pás e cavámos um buraco em nosso redor. Entrincheirámo-nos. Andamos a mirar o que se passa por aí a dois metros de distância como soldados rasos na Frente da Flandres. Em 1919 a febre espanhola apareceu-nos assim que a Primeira Grande Guerra terminou, agora o bicharoco malvado veio de armas e bagagens quando os buracos ainda estão por escavar. Mas na verdade não há buracos para abrir. Na verdade não temos de viver em valas de medo e preconceito. Não temos de dobrar os joelhos e cerrar os dentes para com os que estão por lá, do outro lado, noutras trincheiras, noutras ideias, noutros desafios deixados adiados por cumprir.

O tempo não parou e nós teremos de ficar de pé. De peito firme a olhar de frente para o que aí vem. E não importa o que aí vem. Não pode importar. Teremos de ser todos bravos do pelotão. A vida não se coaduna com o saco vazio da incerteza. E o amor senhores? E o amor? Onde fica o amor. Ficou à espera que mundo abra os braços para que a humanidade volte a dar a volta da vitória. Largado aos elementos na terra de ninguém? Hiroshima e Nagasaki dos afetos. Tabula rasa. O Cogumelo da explosão de quem se esqueceu de escrever no quadro negro de ardósia com o giz de Arco-íris. Garcia Márquez martelou palavras de amor em Tempos de Cólera. Hemingway soprou-nos que a coragem, a loucura e a verdade são os tijolos de um amor maior.

Mas o tipo que me move as certezas de que tudo pode e vai voltar a um lugar sereno depois do tumulto chama-se Charles Bukowski. Descobri-o nas ruas de São Paulo e colou-se-me à pele como um doença venérea. Mas uma doença boa. Daquelas que te criam uma camada de brio na alma e que perdura pelo resto da tua vida. Buk (perdoa-me tratar-te por Buk mas com os amigos do peito não há cá cerimónias) disparou balas certeiras na noite sobre o que é e pode ser o amor. Deixo-vos aqui algumas pedradas no charco para que possamos (ainda) ser filhos de um Deus maior.

O amor não é mais que os faróis acesos de encontro ao nevoeiro.
O amor é a chave perdida da porta quando estás bêbedo.
O amor é aquilo que acontece uma vez por ano, a cada dez anos.
O amor não é mais que uma carica que tu pisas a caminho da casa de banho.
O amor são todos os gatos esmagados do universo.
O amor é aquilo que tu pensas que a outra pessoa destruiu.
O amor é traição, a arder no beco sem saída.
O amor é o ferro.
O amor é a barata.
O amor é a caixa do correio.
O amor é a chuva no telhado no hotel mais barato de Los Angeles.
O amor é o filtro do cigarro colado à tua boca.
O amor é o mais vazio dos lençóis de uma cama por completar.
O amor é o banco do bar quando já ninguém se senta nele.
O amor é o Corcunda de Notre Dame.
O amor é a pulga que não consegues encontrar.
O amor é aquilo que rasteja pelo chão.
O amor é uma palavra usada constantemente, cada vez mais constantemente, distante, cada vez mais distante.
O amor é a tua mulher a dançar colada a um estranho.
O amor são tectos azuis e tectos vermelhos e tectos verdes e andar de avião a jacto.
O amor é o telefone a tocar e alguém atender com a mesma voz ou com uma voz diferente mas nunca a voz certa.
Charles Bukowski

E é isto. Também pode ser isto.
Sempre chegamos ao lugar aonde nos esperam escreveu o mestre certo dia. Mas se não sairmos desta trincheira em que estamos enfiados, não chegamos a lado algum até porque não estará ninguém por lá à nossa espera.

(Esse texto é de João Pedro Santos, que nasceu em Caldas da Rainha, Portugal, em 1980. Humorista, guionista, ator. Formou-se em Teatro pela Escola Superior de Artes e Design. O seu percurso levou-o ao universo teatral, à comédia stand-up, à criação e apresentação de conteúdos para televisão, à poesia e ao conto. Morou em São Paulo, Brasil, onde fez stand-up comedy e trabalhou com diversos humoristas e autores. Em Portugal foi cronista na revista Sábado e no jornal i. Publicou dois livros de poesia em inglês, Swords In The Night (451 Press, 2015), The Fallen Prince (Folio, 2017). A escrita é apenas mais uma ferramenta que o define. Usa-a para exprimir os mundos que andam por aí, dentro da sua cabeça, para que consiga comunicar, para que consiga chegar ao outro, para que consiga contar a verdade de uma mente que procura ser criativa e original. Apaixonado por Lego e pelo Benfica. Atualmente reside em Kiel na Alemanha.)

Participe também dessa coluna! Envie o seu texto (de desabafo ou reflexão) para o email lmsn_91@hotmail.com ou entre em contato pelo instagram @luiza.moura.ef. A sua voz precisa ser ouvida! Juntos temos mais força! Um grande abraço e sintam-se desde já acolhidos!
Luiza Moura.

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Luiza Moura

Luiza Moura de Souza Azevedo é Natural de Feira de Santana- BA, Enfermeira, Especialista em Saúde Pública. Psicanalista e Hipnoterapeuta. Mestranda em Psicologia e Intervenções em Saúde. Compositora e Produtora Fonográfica. Com cursos de Francês e Inglês avançados e Espanhol intermediário. Imortal da Academia de Letras do Brasil/Suíça. Acadêmica do Núcleo de Letras e Artes de Buenos Aires. Membro da Luminescence- Academia Francesa de Artes, letras e Cultura. Membro da Literarte- Associação Internacional de Escritores e Artistas. Doutora Honoris Causa em Literatura pelo Centro Sarmathiano de Altos Estudos Filosóficos e Históricos. Publicou o livro: “A pequena Flor-de-Lis, o Beija-flor e o imenso amarElo”. Instagram: @luiza.moura.ef

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