Erick BernardesHISTÓRIAS DE ARARIBOIA

Era tudo armação: memória sobre a caça de baleias em Niterói

Série: Histórias de Arariboia

Pixabay

A padaria se localizava na esquina da praça com o busto construído em homenagem ao ex-dono do Jornal do Brasil. Ali, naquele lugar ainda tranquilo, recanto onde muitas vezes conversei com seu António, com acento agudo no “ó”, conforme o bom português de Coimbra. Pois é, o velho António Macieira narrava a história de quando chegaram — ele e um monte de imigrantes lusitanos na região conhecida como Ponta da D’Areia —, bem próximo ao Morro da Armação. Lugar onde, anos depois, seria erigida a charmosa Villa Pereira Carneiro.

Naquela época, relatou saudoso, tão logo havia ali chegou pelo começo do século passado, escutou histórias muitíssimo interessantes. Sim, exato, assuntos de mais de cem anos decorridos — e cujos relatos só não se transformaram em lenda niteroiense por causa dos documentos que os imigrantes encontraram. Verdade, registros de contabilidades resultantes do descarne e da produção de óleo de baleia em terras da Cidade Sorriso. Incrível como as narrativas do ancião português chamavam a atenção. Diria ele: “— sim, ora pois, um monte de papel de números sobre corte das baleias que matavam ali, óh!”, insistia o senhor António, apontando ao longe o sopé da rocha onde deitavam os animais gigantes.

Segundo as histórias ouvidas na panificadora, os documentos apontavam que, onde hoje se chama atualmente Morro da Armação, enfileiravam baleias na pedra, no intuito de retirar delas as peles, recortar as carnes e extrair o óleo que serviria aos candeeiros e, principalmente, à construção de alvenaria. Isso mesmo, o óleo se revelou o antepassado do cimento.

Bem, certo é que aqueles fregueses se encontravam no estabelecimento, aguardando as bisnagas quentinhas de pão, insistiam em pegar carona na conversa. Justamente, e foi assim, desse jeito que a história perpassou gerações. Qualquer morador mais velho sabe da caça às baleias, atividade responsável por fazer a enseada se firmar como lugar famoso.

Quer saber como a matança das baleias acontecia? Claro. Explico. De acordo com o meu narrador luso, chamavam o lugar de Armação, pois consistia no espaço no qual se armavam equipamentos de esquartejamento dos pobres mamíferos aquáticos e refinamento dos fluidos. Dava dó de ver aqueles desenhos feitos com tinta nanquim no papel a ilustrar a história da antiga fábrica de óleo de baleia. Imagine se a visão fosse ao vivo! Capturavam com arpões gigantes e arrastavam os animais para o Morro da Armação da Ponta D’Areia. Muito sangue. Sim, os sangues escorriam pelos veios artificiais cortados com talhadeiras e martelos de mão nas rochas que circundavam a Guanabara. De cima para baixo, efeito da gravidade e o líquido rubro a descer pela pedra. A tradição se mantinha desde os primórdios da colonização, desse jeito.

Eu mesmo imaginava que assistir à cena dos bichos sendo retalhados com fins de produção deveria doer na alma do cidadão menos acostumado. Segundo Camila Dias (2018), na época de caça às baleias em águas brasileiras, chamavam a tal gordura do cetáceo de ‘azeite’ e isso servia a “diversos fins: na iluminação, na impermeabilização de navios e barcos, fabrico de velas, sabões e outros produtos. No Brasil, o óleo de baleia era vendido a alto preço, embora tivesse qualidade inferior ao de oliva”. O lucro anestesiava o sentimento dos ricos em relação à matança. Embora absurdo, naturalizou-se a atividade. Há países que ainda praticam a tal matança.

O leitor agora sabe. Não é à toa que se criou fábrica de velas e sabões para esse lado da Guanabara. Matéria-prima oleosa e excelente com fins de linha de produção e renda certa. Mas tudo isso ao preço da chacina de milhares de baleias na Ponta D’Areia, isso as gerações não esqueceram. E fica o dito: só por causa desses tais documentos encontrados por António Macieira, a história da Armação não entrou para as raias do esquecimento.

Fonte: http://historialuso.an.gov.br/index.php?option=com_content&view=article&id=5124&Itemid=394

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Erick Bernardes

A mesmice e a previsibilidade cotidiana estão na contramão do prazer de viver. Acredito que a rotina do homem moderno é a causadora do tédio. Por isso, sugiro que façamos algo novo sempre que pudermos: é bom surpreendermos alguém ou até presentearmos a nós mesmos com a atitude inesperada da leitura descompromissada. Importa (ao meu ver) sentirmos o gosto de “ser”; pormos uma pitadinha de sabor literário no tempero da nossa existência. Que tal uma poesia, um conto ou um romance? É esse o meu propósito, o saber por meio do sabor de que a literatura é capaz proporcionar. Como professor, escritor e palestrante tenho me dedicado a divulgar a cultura e a arte. Sou Mestre em Letras pela Faculdade de Formação de Professores da UERJ e componho para a Revista Entre Poetas e Poesias — e cujo objetivo é disseminar a arte pelo Brasil. Escrevo para o Jornal Daki: a notícia que interessa, sob a proposta de resgatar a memória da cidade sob a forma de crônicas literárias recheadas de aspectos poéticos. Além disso, tenho me dedicado com afinco a palestrar nas escolas e eventos culturais sobre o meu livro Panapaná: contos sombrios e o livro Cambada: crônicas de papa-goiabas, cujos textos buscam recontar o passado recente de forma quase fabular, valendo-me da ótica do entretenimento ficcional. Mergulhe no universo da leitura, leia as muitas histórias curiosas e divertidas escritas especialmente para você. Para quem queira entrar em contato comigo: ergalharti@hotmail.com e site: https://escritorerick.weebly.com/ ou meu celular\whatsapp: 98571-9114.

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