LiteraturaRenato Cardoso

O Humanismo e a busca pela liberdade de expressão

Uma semana se passou, desde que meu tio me falou sobre o Trovadorismo. Aquela aula já deve ter sido dada e, se foi com a empolgação com a qual ele me ensinou, imagino o sucesso que deve ter sido. Tio José me chamou para conhecer uma cafeteria nova que havia aberto aqui na nossa cidade. Esqueci de falar, mas além de meu tio ele é meu padrinho.

Estava marcado às 15 horas, e na hora exata estávamos lá. Cumprimentamo-nos e logo procuramos um lugar para nos sentar. Rapidamente perguntei sobre a aula e ele respondeu que foi legal e que a próxima já estava pronta (ele ia falar sobre o Humanismo). Como sou curioso, não dispensei tal palestra (era uma honra poder ter acesso a todo esse conhecimento).

Antes da garçonete chegar, com tudo que havíamos pedido, tio José começou: “Garoto, o Humanismo remonta o final da Idade Média (Século XV) e o início da Idade Moderna (Século XVI). Na Europa, a expansão marítima, de potencias como Portugal e Espanha, ditava um novo ritmo a economia continental, pois facilitou a troca e venda de mercadorias. O lucro obtido nessas novas transações fez com que surgisse uma nova classe social, a burguesia. Com isso, as cidades, principalmente as portuárias, cresceram, fazendo com que os camponeses largassem o campo e fossem para estas cidades. O sistema feudal, antes explicado no Trovadorismo, entrou em crise. A burguesia e a nobreza brigavam pelo poder, assim como a cavalaria e a marinha. Mas toda esta revolução comercial, só foi possível graças a invenção da bússola, que facilitou toda essa expansão territorial, pois norteava os navegantes quanto a sua localização”.

“Nossa!’ – pensei. Hoje a bússola foi substituída por sistemas informatizados de localização, mas teve seu papel fundamental na história. Imagina se não a tivéssemos inventada? Logo, voltei a atenção total para a explicação do meu tio. Pude perceber que a palestra de hoje seria mais longa.

“Continuando… A todo esse comércio feito no período das grandes navegações damos o nome de Mercantilismo. Mas tivemos uma outra invenção revolucionária, a prensa móvel. Ela foi inventada por Johannes Gutemberg e ajudou no aperfeiçoamento da imprensa, além de descentralizar o conhecimento, que até então estava com a elite burguesa. Imagina só, o proletariado nesse momento teve acesso as obras clássicas e a bíblia. O homem começou a buscar sua liberdade, a ser senhor de si próprio. A religião virou opcional”.

Neste momento, interrompi meu tio e perguntei: “Nossa tio, como você sabe disso tudo?”. Ele sorriu, terminou de tomar um gole do seu chocolate quente e antes de comer um pedaço de torta, me respondeu: “Estudo! Simples!”. Paramos por cinco minutos, pois estávamos comendo, mas ao término do primeiro pedaço de torta, ele prosseguiu entusiasmado:

“Voltando… A Igreja Católica tomou um grande golpe no período, pois toda aquela subordinação que o homem tinha, deixou de existir. A racionalidade chegou ocupando espaço na mente dos seres daquela época, o Teocentrismo entrou em conflito com o Antropocentrismo, a Ciência e a Religião se digladiavam no campo do conhecimento. E o homem? Este, estava mais propenso a ciência e ao antropocentrismo, pois ele se sentia livre e queria ter a explicação de tudo. O cientificismo, o modelo clássico, a valorização do corpo humano e das emoções, assim como a busca pela beleza e perfeição foram temas pertinentes a este período literário”.

“Em Portugal, Fernão Dias se tornou cronista-mor da Torre do Tombo (1418) com o objetivo de contar as histórias dos reis através de documentos históricos. Ao contrário dos anteriores, Fernão não usou somente a oralidade para montar seus textos. Ele uniu a narrativa histórica a narrativa artística. Ele era mais realista e não tinha o cunho religioso, descrevia, com detalhes, o cotidiano do palácio e das aldeias, apresentando, inclusive, as festas populares e o papel do povo nas guerras. Tudo isso tem um nome, chamavasse Verossimilhança, ou seja, a busca pela retratação mais próxima possível da realidade. Os reis, sobre os quais ele escreveu, foram: D.Pedro, D.Fernando e D.João I e sua obra pertenceu ao gênero narrativo” – explicou com toda calma do mundo.

Percebi que a senhora que estava sentada próxima a nós, se interessou pela história que meu tio contava. Ela o olhava com tamanha atenção, que nem percebeu que eu estava olhando para ela. Sem perda de tempo, meu tio a chamou para sentar conosco. O nome dela era Aurélia. Tinha seus 60 anos, era uma arquiteta aposentada e adorava literatura. Agora com Dona Aurélia devidamente alocada, meu tio voltou a falar:

“A poesia, neste período, sofreu uma significativa modificação. A música que a acompanhava no Trovadorismo, a deixou e a poesia seguiu seu rumo sozinha (a palavra finalmente era ouvida sem interrupções). O amor foi outra característica mudada. Antes platônico, passou a ser mais real, um amor com intimidade, com o toque (sem cunho carnal). Os poemas eram feitos em redondilhas maiores, ou seja, versos com 7 sílabas poéticas e com uma linguagem elaborada. A obra que marcou esse período foi “Cancioneiro Geral” de Garcia Resende (1516), que contava com mil de poemas de trezentos autores. Para tudo isto, foi dado o nome de Poesia Palaciana”.

Dona Aurélia se emocionou, mas quem não iria. Não sei se foi tudo que meu tio falou, ou se foi o pedaço de torta dela que chegou. Percebendo que havia atrapalhado, ela pediu para que meu tio José continuasse.

“Finalizando… O grande nome deste período, com certeza, foi Gil Vicente. Quem não lembra do “Auto da Barca do Inferno”? O Teatro Vicentino revolucionou a época, tinha um caráter popular e criticava todas as classes sociais (não poupava ninguém, nem mesmo os monarcas e o clero). O seu tom era moralizante, mas não no sentido de ditar regras, e sim no sentido de buscar a coerência das pessoas. Para ele, se o homem buscava a Igreja, no mínimo, deveria seguir seus valores. Para coroar tudo isso, Gil Vicente usava o humor. Mas ainda havia muitas características medievais em suas obras, tais como: o sagrado, o místico, a questão catequizadora, contrapondo sempre ao pagão, ao crítico, ao satírico, ao cotidiano e ao profano do Humanismo. As suas encenações eram dividas em: litúrgicas e profanas. As litúrgicas eram subdivididas em: mistério (falavam da vida de Cristo e das histórias da Bíblia), milagres (contavam as vidas dos Santos e seus respectivos milagres) e moralidades (descreviam as virtudes e os vícios dos homens). Já as profanas eram subdivididas em: momos (teatro de mímicas, que buscava a ridicularização dos costumes da época), farsas (eram populares e mostravam, através do humor, o cotidiano da vida na corte) e sotties (era o teatro baseado em personagens loucos, que tinha liberdade para dizer todas as verdades, que uma pessoa “normal” não diria)”.

Uma hora e meia havia se passado, todos nós já tínhamos terminado os nossos lanches. Dona Aurélia agradeceu meu tio pelo conhecimento. Ela saiu mais leve e feliz. Já estava na hora de irmos. Meu tio pagou a conta e saímos rumo a casa da vovó Gertrudes.

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Renato Cardoso

Graduado em Letras pela UERJ FFP. Pós-Graduado em Educação à Distância – Uninter. Atua como professor desde 2006 na rede privada. Leciona Língua Inglesa e Literatura em diversas escolas particulares e em diversos segmentos no município de São Gonçalo. Coordenou, de 2009 a 2019, o projeto cultural Diário da Poesia, no qual também foi idealizador. Editorou o Jornal Diário da Poesia de 2015 a 2019 e o Portal Diário da Poesia em 2019. É autor e editor de diversos livros de poesias e crônicas, tendo participado de diversas antologias. Apresenta saraus itinerantes em escolas das redes pública e privada, assim como em universidades e centros culturais. Produz e apresenta o programa “Arte, Cultura & Outras Coisas” na Rádio Aliança 98,7FM. Hoje editora a Revista Entre Poetas & Poesias. Contato: professorrenatocardoso@gmail.com

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