LiteraturaRenato Cardoso

Quinhentismo: da conquista a catequização do nativo brasileiro

Quinhentismo: da conquista a catequização do nativo brasileiro
Renato Cardoso

Naquela manhã, minha mãe acordou cedo e me chamou para irmos ao museu (na cidade vizinha a nossa havia um importante museu da região). Eu topei, embora, particularmente não goste muito de museus, os acho meio parados. Era a oportunidade que ela teria de me mostrar o contrário.

Ele havia convidado a vovó e meu tio José para irem juntos (minha avó estava precisando sair um pouquinho). Arrumamos as coisas, ligamos para meu tio e fomos até a casa da vovó buscá-los. Em 20 minutos, estávamos todos reunidos e indo de encontro ao museu.

Minha mãe, durante a viagem, relembrou as vezes que ia ao museu com o vovô e das histórias que ele contava, algumas extremamente engraçadas e ou terrivelmente horripilantes. Não me lembro do vovô direito, eu era muito pequeno quando ele se foi.

Chegamos ao museu, pontualmente, às 10h, era uma manhã de inverno, estava frio e as pessoas bem arrumadas (eu gosto mais deste período do ano, as pessoas ficam mais elegantes e não há nada melhor do que as bebidas quentes, digo, chocolate quente).

Pegamos os ingressos e fomos entrando, eu não estava muito entusiasmado, mas era o que tinha para aquele dia. Separamo-nos. Cada um foi para parte que mais gostava. Minha mãe e minha avó ficaram juntas, elas adoravam ver fósseis. Não vi para onde meu tio foi e eu fui andar, não sabia bem para onde queria ir.

Chegou em um momento, que de tanto que andei, me deparei com a seção de literatura (eu não sabia que em museus também tinha sua parte literária). Entrei, um tanto curioso, vi que dentro de uns recipientes de vidro, tinha uns papéis antigos. Não sabia o que era, até que meu tio me viu e chegou perto de mim sem que eu percebesse.

“Garoto, sabe o que é isso?!” – perguntou, não disfarçando a vontade de explicar.

“Oi tio, nem vi você chegar, estava tentando decifrar o que era, mas não consegui ler direito, o papel está velho e a letra miúda. Você sabe? Se souber, por favor, me explique”.

“Então, vamos lá! Estes escritos datam de 1500, ano da descoberta ou conquista do Brasil, você escolhe o melhor termo para você. Contextualizando, na Europa aconteciam as Grandes Navegações. Potências como Portugal e Espanha se lançavam ao mar em busca de novas rotas comerciais. Vasco da Gama, Cristóvão Colombo e Pedro Álvares Cabral foram os grandes nomes deste período. As cidades litorâneas europeias estavam crescendo devido a toda esta expansão. A princípio, era somente a tentativa de descoberta de novos caminhos para as Índias, mas acabou aqui na Américas. Primeiro foi Colombo, representando a Espanha, que chegou a América do Norte e depois, representando Portugal, foi a vez de Cabral aportar no Brasil, mas precisamente em Salvador” – explicou tio José.

“O desenvolvimento cultural, devido ao período do Renascimento, era crescente entre o povo do antigo continente, a substituição da razão pela ciência marcava o fim da Idade Média. O Homem estava mais interessado em si, descobriu que poderia ter voz e que não precisaria se preocupar excessivamente com a salvação após a morte. Não existia no Brasil uma literatura organizada ou corrente literária, até porque os únicos habitantes que aqui existiam eram os índios” – continuou explicando com entusiasmo.

As pessoas em volta começaram a prestar atenção. Meu tio não precisava de guia, ele sabia do que estava falando. Minha curiosidade sobre aquele papel ainda não havia sido tirada. Meu tio só havia contextualizado o período, como sempre faz. Não hesitei e perguntei: “Mas tio, que papel é este? Parece uma carta ou algo do tipo”.

“Correto! É uma carta. É a primeira carta escrita em solo brasileiro. O autor é Pero Vaz de Caminha, escrivão-mor da caravela de Cabral. Nela, Caminha descreveu o território encontrado e seus habitantes. Ele escreveu sobre as maravilhas encontradas no litoral baiano, principalmente o Pau-Brasil. Sobre os Índios, ele citou o fato deles andarem nus e de terem o hábito de se banharem constantemente. Sobre metais preciosos, nada disse, pois não tinha como saber ainda da existência abundante de ouro nas terras brasileiras. Caminha ainda descreveu o primeiro contato com os nativos e mostrou ao rei português que aqui prometia ser uma terra fértil, pois havia muita água e um clima tropical” – disse tio José, continuando.

“Estes textos não constituem uma literatura genuinamente brasileira, uma vez que não tem um tom literário e sim documental. Nela, podemos perceber o excesso de adjetivos e uma descrição minuciosa de tudo que haviam encontrado aqui. A este tipo conjunto de cartas deram o nome de Literatura de Informação. Não tivemos muitas, pois a coroa portuguesa não se interessou pelo Brasil logo de cara. Demorou aproximadamente 30 anos ou mais para enviarem a primeira expedição colonizadora para cá” – dissertou titio, chamando ainda mais atenção.

Então, eu tinha ao alcance dos meus olhou uma carta escrita há mais de 500 anos. Lógico, não era a original, mas mesmo assim. Minha imaginação decolou e comecei a construir as cenas dos portugueses aqui chegando e dos índios os recebendo. Será que estas cartas contaram fielmente tudo que aconteceu? Acho que nunca vamos saber, nem mesmo meu tio.

Continuamos a andar e vimos um texto perto de uma cruz e não contendo a minha vontade de saber, perguntei: “Esse texto também é deste período tio?”.

Ele não pensou muito e respondeu: “Sim! Após um período de desinteresse da coroa portuguesa pelas terras brasileiras, expedições colonizadoras foram enviadas para cá. Elas eram uma nova cruzada, com um tom diferente. Na Europa tinha acontecido a Reforma Luterana, que separou uma parte da Igreja Católica, dando origem a vertente Evangélica. O Rei Henrique VIII, na Inglaterra, fundava o Anglicanismo. A Igreja Católica precisava se reformar ou, melhor dizendo, precisava agir contra a reforma. Logo, toda a expansão mercantil-capitalista ganhou um ar religioso. E aí entra a figura do Jesuíta”.

“Inácio de Loyola criou, em 1534, a Companhia de Jesus, com objetivo de educacional e missionário. Em 1549, os Jesuítas desembarcaram no Brasil com objetivo de catequizarem os indígenas, mas foi em 1553 que chegou, as terras brasileiras, o principal padre jesuíta, Padre José de Anchieta. Ele foi o grande nome do período quinhentista no Brasil. Além de seus poemas, Anchieta escreveu peças teatrais que serviram na catequização dos Índios. Ele tentou associar os costumes locais com as crenças europeias, e através de encenações mostrava aos Índios o triunfo da moral do povo do velho continente. O padre deixou obras importantes para o período, uma delas foi a primeira gramática de tupi-guarani, língua dos indígenas brasileiros” – finalizando disse meu tio.

Nunca havia pensado nisso. Como deve ter sido os primeiros anos do Brasil como colônia? Meu professor de história está em maus lençóis quando chegar a escola na segunda-feira. Mas senti que tio José não tinha acabado.

“Este conjunto de obras, ficou conhecido como Literatura Jesuítica ou Catequizadora. Outros padres, tão importantes quanto Anchieta, também estiveram aqui. Padre Manuel da Nóbrega foi um deles. Ao contrário do anterior, a função dele foi mais como um grande articulador político, tendo trabalhado junto aos governadores gerais contra a invasão dos franceses e a revolta dos índios. Suas cartas divulgaram, ao povo europeu, os habitantes brasileiros. Junto a Anchieta, inaugurou a primeira escola em solo brasileiro, o Colégio São Paulo na Aldeia Piratininga (hoje, conhecida como São Paulo). Também participou das fundações de Salvador e Rio de Janeiro” – encerrou a explicação.

Minha mãe estava nos chamando, ela queria mostrar os fósseis e as múmias. Não podia deixar de atendê-la, embora não gostasse muito do tema. Meu tio concordou e fomos.

 

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Renato Cardoso

Graduado em Letras pela UERJ FFP. Pós-Graduado em Educação à Distância – Uninter. Atua como professor desde 2006 na rede privada. Leciona Língua Inglesa e Literatura em diversas escolas particulares e em diversos segmentos no município de São Gonçalo. Coordenou, de 2009 a 2019, o projeto cultural Diário da Poesia, no qual também foi idealizador. Editorou o Jornal Diário da Poesia de 2015 a 2019 e o Portal Diário da Poesia em 2019. É autor e editor de diversos livros de poesias e crônicas, tendo participado de diversas antologias. Apresenta saraus itinerantes em escolas das redes pública e privada, assim como em universidades e centros culturais. Produz e apresenta o programa “Arte, Cultura & Outras Coisas” na Rádio Aliança 98,7FM. Hoje editora a Revista Entre Poetas & Poesias. Contato: professorrenatocardoso@gmail.com

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