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Terça-feira: sobre aquilo que acontece no meio

Talvez a terça-feira seja um dos dias mais injustiçados da semana e, embora o domingo seja teoricamente o dia que inicia, coube à segunda-feira a obrigação do recomeço. As quartas carregam uma grande importância para a Psicanálise, já que o Freud resolveu criar um espaço de consolidação da teoria psicanalítica nesses dias que ele chamou de “Sociedade Psicológica das Quartas-Feiras”; As quintas trouxeram o TBT (Throwback Thursday) para boas memórias, mesmo que nem sempre seja assim. A sexta vem com a promessa do alívio, o sábado se oferece ao prazer, o domingo ao descanso… E a terça? A terça simplesmente chega, sem grandes promessas. Ou será justamente a terça o dia capaz de trazer os maiores significados?! É preciso estar atento à simbologia presente em tudo que a vida traz. Dizem que “Deus escreve certo por linhas tortas”, mas às vezes alguns sinais também podem não ser para todos. O Jacques Brel na música “Ne Me Quitte Pas” diz: …Je t’inventerai des mots insensés que tu comprendras…” (“…Eu inventarei palavras sem sentido que você compreenderá”) e por falar em música e significados próprios hoje é justamente uma terça de um dia bem azul e enquanto escrevo escuto “The Winner Takes It All” do ABBA e sei que originalmente a música foi feita em momento de tristeza, mas para mim ela traz uma energia de alegria, de amor e de vida, do mesmo modo que a terça e o azul desse dia.

Em português a terça-feira vem do latim “tertia feria”, “terceiro dia”. Em outras línguas, porém, a terça ainda carrega a memória de Marte, o deus romano da guerra. “Martes”, em espanhol; “mardi”, em francês; “martedì”, em italiano. É curioso que em algumas línguas, a terça é o dia de um deus guerreiro e aqui por muitas vezes carrega apenas a ideia de continuidade, como se a língua portuguesa tivesse retirado dela a necessidade de lutar para provar que existe. E talvez exista alguma sabedoria nisso porque passamos boa parte da vida acreditando que precisamos estar vencendo alguma coisa. Precisamos produzir, conquistar, melhorar, superar, começar de novo. Até o descanso, muitas vezes, precisa ser merecido. A terça-feira não promete vitória, ela apenas continua e há muita profundidade nisso. Winnicott, ao falar sobre a experiência de existir e sobre a importância de um ambiente suficientemente bom nos lembra que a vida psíquica também precisa de continuidade e segurança para florescer.

Existe uma parte da vida que não é feita apenas de grandes acontecimentos, mas também é feita de sustentação e sustentação raramente é espetacular. Ninguém aplaude quem simplesmente continua e a terça parece pertencer exatamente a esse território. Ela é o meio e nós temos uma relação curiosa com o meio. Gostamos dos começos porque eles carregam possibilidades. Gostamos dos finais porque eles oferecem respostas. Mas o meio é desconfortável. No meio, ainda não sabemos, ainda estamos construindo. No meio, é preciso continuar sem a garantia de que dará certo. Talvez seja por isso que tantas pessoas vivam esperando a próxima sexta-feira, esperando as férias, esperando o aniversário, esperando o dinheiro, esperando o relacionamento melhorar, esperando o projeto acontecer, esperando a vida começar. E, enquanto esperamos, a vida passa… Nietzsche escreveu sobre o amor ao destino, o “amor fati” que é uma disposição de afirmar a vida não apenas quando ela corresponde aos nossos desejos, mas também em sua condição concreta, imperfeita e inevitável. Talvez amar uma terça-feira seja uma pequena versão disso. Não porque a terça seja maravilhosa sempre, mas porque ela é o que é, sem maquiagem, sem promessa.

A mesma terça pode representar coisas completamente diferentes porque os dias, no fundo, não tem significado sozinhos, então eu, Luiza Moura, convido todos os meus leitores a uma reflexão sobre os dias de vocês e peço licença para concluir esse texto dizendo que sempre percebo a presença de Deus na minha vida e sei que nada acontece por acaso. Apesar de eu amar ter nascido em um sábado e carregar muito afeto por esse dia, sinto nos mistérios da terça o nascer do amor e algumas das maiores transformações das nossas vidas acontecem sem testemunhas, acontecem no meio, enquanto estamos no caminho, enquanto ainda não sabemos, enquanto ainda estamos tentando, enquanto somos uma versão inacabada de nós mesmos, sendo um pouco terça-feira. Sem tantas certezas de início, nem fim, nem chegada, nem partida. Apenas nesse território estranho e bonito chamado “entre” e levando a vontade e a atitude de fazer valer a continuidade até o mais lindo “para sempre”.

(Esse texto é da minha própria autoria- Luiza Moura de Souza Azevedo).

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