Guardei meus dias numa estante de silêncio,
onde o tempo envelheceu sem me chamar.
Troquei o sol por uma lâmpada acesa
e aprendi, em meio à sombra, a esperar.
Enquanto lá fora a vida acontecia,
eu permanecia presa ao mesmo lugar;
lia o mesmo parágrafo, página após página,
como quem lê sem nunca terminar.
Não sei dizer quando o riso se fez raro,
nem em que instante o peito se fechou;
só sei que o mundo gira, indiferente,
e alguma coisa em mim simplesmente parou.
Eles passam. Eu permaneço. E ninguém percebe…
O quanto custa parecer que está tudo bem.
Meu esforço é uma casa sem telhado,
que abriga todo mundo, menos alguém.
Dei de mim até restarem migalhas,
até meu próprio nome soar distante;
e, quando procurei por alguma resposta,
encontrei apenas um silêncio constante.
Às vezes penso que o problema sou eu,
que existe em mim um erro sem explicação,
um defeito sem rosto ou nome certo,
escondido nas dobras do coração.
E a tristeza não grita: Apenas chega,
senta ao meu lado e decide permanecer;
não pede licença, não faz alarde,
só fica ali, quieta, sem desaparecer.
Não consigo. Não respiro. Não descanso.
E ainda assim, continuo de pé;
enquanto os que não ligam seguem rindo,
eu junto os pedaços do que ainda houver.
Eles parecem leves, quase intocáveis,
como se a vida lhes coubesse na mão;
enquanto eu arrasto os meus dias
como quem carrega o peso de um verão.
Queria entender por que dói tanto
ser boa o bastante e nunca suficiente;
por que para alguns a vida é brisa,
e para mim se arrasta lentamente.
Talvez ninguém enxergue as minhas guerras,
nem as noites em que aprendo a suportar;
há batalhas que não deixam cicatrizes,
deixam o coração cansado de lutar.


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