Isso aconteceu há uma semana, no segundo dia da primavera. Duas horas da tarde: uma peneirinha gelada e insistente enchia o ar, molhava o chão e tudo ao redor. O termômetro, na rua, marcava impressionantes dezessete graus, em pleno bairro da Tijuca, Rio de Janeiro. Achei um pouco inconsistente, afinal, nem fazia esse frio todo. De volta ao apartamento, constataria a medida de vinte graus, mais aceitável, embora anômala para a estação.
Tinha saído de um exame médico e de comprar remédios. Apesar da chuva, decidi caminhar até em casa. Era um incômodo desviar de poças e equilibrar bolsa de compras e guarda-chuva. Andar, porém, supriria parte do exercício diário e me daria oportunidade de resolver coisas, enquanto apreciava o ambiente. Claro, o cenário cinzento e úmido, com vias tomadas de carros engarrafados, não era uma vista aprazível. No entanto, nunca se sabe o que se pode encontrar pela frente.
Eu precisaria passar pela rua da feira das quartas. Àquelas horas, já estaria em processo de desmonte. Ainda assim, preocupava-me com o local no qual ficavam os carros frigoríficos das peixarias. Lá, sempre sobravam muitas escamas e alguns restos de pescados descartados, mesmo com o trabalho dos garis. Com a chuva, eu imaginava os dejetos espalhados pelo caminho. Como evitar sujar a barra da calça comprida e o tênis?
Ia concentrada no suposto problema, quando fui despertada para um evento inusitado e inédito para mim, justamente favorecido pelo que mais me incomodava os pensamentos. Antes do cruzamento ao final da rua, sobre uma construção abandonada na esquina, nas calçadas e no asfalto, pelo menos umas quinze garças enfeitavam a paisagem. Eu já havia visto essas aves de perto, óbvio: no zoológico, em alguns riachos, no Canal do Mangue, na borda da baía de Guanabara, na Quinta da Boa Vista. Mas, ali, em plena rua do bairro, era novidade.
Elas estavam coletando as sobras deixadas pelos peixeiros, sem disputas, nem reações aos passantes. Apenas levavam suas existências, buscando alimento, numa comunhão inesperada entre natureza e meio urbano. Não sou chegada a animais de estimação, contudo, aprecio a maioria deles em estado natural, livres. Aquele, portanto, podia ser considerado um espetáculo.
Confesso e lamento, tive receio de pegar o celular para registrar a cena, dados os roubos frequentes de aparelhos. Então, por uns instantes, fiquei apenas observando, desfrutando e gravando tudo na memória. Uma bela visão, enchendo de poesia de vida a tarde chuvosa e friorenta da primavera.


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