Ninguém percebe a chuva atrás de um sorriso,
nem o inverno escondido onde parecia paraíso.
Há quem dê tanto de si, sem saber se guardar,
e ainda se pergunte por que insiste em amar.
Talvez sentir demais pareça sempre um defeito,
quando se carrega o mundo apertado contra o peito.
Enquanto tantos parecem saber para onde ir,
há quem siga em silêncio, só para não desistir.
Há vozes que insistem: é preciso ser melhor,
mais forte, mais frio, menos preso à própria dor.
Mas como endurecer aquilo que nasceu para sentir,
se até o que machuca ensina alguma forma de seguir?
O passado bate à porta com seu conhecido som,
trazendo antigas sombras para dentro de um tom.
E há coisas que permanecem difíceis de esconder,
mesmo quando o silêncio parece tudo proteger.
Talvez seja pequena a presença na imensidão,
talvez falte coragem, talvez sobre coração.
Talvez não seja possível vencer todo dia,
e sobreviver ao dia já seja alguma valentia.
Quando a noite pergunta o que se busca encontrar,
restam poucas palavras, difíceis de pronunciar.
Só uma esperança, quase impossível de ouvir,
como se o amanhã pudesse ensinar a prosseguir.
Porque nem toda semente sabe quando vai florir,
nem toda estrela consegue imediatamente luzir.
E mesmo perdido no meio da escuridão,
há quem siga procurando alguma direção.


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