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Com a graça de Deus

“No creo en brujas pero que las hay las hay”.

 É mais ou menos como me sinto em matéria de religião. Qualquer uma. Não acredito em nenhuma, mas temo que, no fim, alguma delas tenha razão.

E se céu e inferno existirem mesmo? Vai que subo, ou desço, e dou de cara com aquela criatura de quem eu acreditava ter ficado livre de uma vez, mas que está lá só me esperando pra continuar me azucrinando por toda a eternidade?

Vai que os espíritos estiveram o tempo todo aqui, sobre os meus ombros, espiando tudo o que eu fazia? Com que cara vou encarar a minha mãe lá do outro lado do além? Isso pra não falar da tal onisciência e onipresença de Deus… Se ele é isso tudo que padres e pastores dizem, estou perdido para todo o sempre!

Aliás, não me dou bem com padres, desde pequeno, e acho missa, Deus me perdoe!, um negócio chatíssimo. Só não é pior do que culto. Mas faço o sinal da cruz antes de o avião em que estou levantar voo e do jogador do meu time bater um pênalti. E dou Graças a Deus quando algo bom acontece, creditando a Ele aquilo que consegui com enorme esforço, que não custa fazer um agrado ao Todo-Poderoso.

Fujo de pastores neopentecostais e de seus milagres, pelos quais devemos pagar antecipadamente e em prestações mensais pro resto da vida. Quando sou obrigado a ir, para agradar um parente ou amigo, a uma dessas igrejas, evito sentar na frente, para evitar os perdigotos milagrosos do demoníaco procurador de Deus que vociferará contra os ímpios, certamente me encarando.

Aliás, uma vez, na rua, duas senhoras com aquele sorriso de vendedora de butique colado no rosto, me abordaram e me forçaram a receber um folheto de divulgação dos cultos de uma igreja, na certa prevendo que eu estava necessitado de milagres ou redenção. Recebi a contragosto a propaganda e, pra minha sorte, três metros à frente, vi uma lixeirinha e joguei fora o panfleto que já trazia na mão. Não é que as bandidas estavam me observando?  Vieram atrás de mim e me rogaram pragas terríveis. Até hoje, quando me acontece alguma coisa de ruim, o que não é raro, penso logo que foi coisa daquelas assustadoras fiscais do Criador.

Morro de medo de pais e mães de santo. Temo que eles tenham mesmo os poderes que dizem ter e que vejam o meu passado, que guardo em segredo só pra mim, ou que me vasculhem por dentro e descubram quem eu verdadeiramente sou e o que eu sinto. Gosto dos rituais, acho as músicas e as roupas bonitas, mas tenho pavor das estátuas medonhas que os terreiros exibem. Além de ser absolutamente contra o sacrifício de animais e de achar um perigo aquele monte de vela acesa num lugar fechado, cheio de ráfia e palha.

Acho que a minha repulsa a esse contato intermediado com o divino vem da minha mãe. Ela perambulou por várias seitas e professou diversos credos ao longo da vida. Quando abraçava uma causa, arrastava a família toda na sua nova jornada espiritual. Dali a um tempo, que podia levar anos ou dias, ela cansava do troço e partia pra outra. Alguns de nós, os filhos, ficavam pelo caminho, irremediavelmente presos a uma crença, mas os demais seguiam com ela na sua busca por paz que, ela achava, só a religião lhe daria. E saía batendo à porta de tudo quanto lhe indicavam, com a mesma pergunta presa na garganta: – É aqui a casa de Deus?

Eu que não creio, quando peço, peço por mim e por minha gente, tal qual  Vinícius, pois como o Jorge Amado, que era ateu e viu milagres, já vi alguns, também. Por isso, estou aberto a empurrõezinhos divinos, aceito orações, recebo preces e acolho mandingas, desde que me ajudem a manter a saúde boa, a inspiração presente, os amigos por perto e um amor sempre à espreita. Com a graça de Deus!

“No creo en brujas pero que las hay las hay”.


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Criada em 2020 pelo professor e poeta Renato Cardoso, a Revista Entre Poetas & Poesias é um periódico digital dedicado à valorização da literatura e da arte em suas múltiplas expressões. Mais que uma revista, é um espaço de conexão entre leitores e autores, entre a sensibilidade poética e a reflexão cotidiana.

Registrada sob o ISSN 2764-2402, a revista é totalmente eletrônica e acessível, com publicações regulares que abrangem poesia escrita e falada, crônicas, ensaios, entrevistas, ilustrações e outras formas de expressão artística. Seu objetivo é tornar a arte acessível, difundindo-a por todo o Brasil e além de suas fronteiras.

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