Por Elias Antunes
O romance do escritor Ricardo Ramos Filho, “Toda poeira da calçada”, a partir do título, narra a história do cotidiano do escritor Rodrigo Ferreira Ferro, um homem aposentado, vivendo com sua mulher, Linda, e as mudanças advindas da terceira idade: discriminação, síndrome do ninho vazio, abandono e a aparência de fim, de “cul de sac” em que a vida encaminha as pessoas, quase significando que a terceira idade é o fim da vida, no sentido de que as pessoas param de se permitir.
Há frases muito fortes, como: “Andar permite dar à paisagem sua verdadeira natureza.” (RAMOS FILHO, 2025, p. 17). Isso para mostrar gostos peculiares do personagem central, a fim de se sentir vivo e útil.
Nas suas caminhadas, encontra um quadro retratando natureza morta e, a despeito de uma preferência muito grande das pessoas por esse tipo de quadro, jaz “junto ao lixo de uma residência”. Na dúvida, deixa o quadro onde estava e segue seus afazeres do momento. Volta para casa, para a esposa e os dois gatos de estimação.
Dividido em três partes, chamadas de Cadernos Um, Dois e Três, o romance prossegue, com Rodrigo Ferreira Ferro trazendo o quadro para a sua casa e colocando-o em um canto meio escondido.
Está cheio de frases curtas, às vezes de uma palavra apenas, como: “Beca”, “Sou dela”, “Em vão”, “Brinca”, “Hálito de sardinha”, “Enormes”, “Mangá”, “Mangata”, “Preciso correr”, “Fico Feliz”, “Sim”, dentre muitas outras. Essas frases dizem muito do estilo do autor: enxuto, lacônico, encarando a criação de um romance como algo sólido, que deve ser construído como uma casa, feito para vencer as amarras do tempo.
A história passa-se em São Paulo, a maior metrópole brasileira. O personagem percorre pelas ruas e pontos conhecidos da grandiosa capital. Há neste texto a introdução da metalinguagem, afinal trata-se da história de um escritor, em que não faltam poesia, citações, iniciações.
Repleto de referências a escritores, poetas e artistas, demonstra o vasto cabedal de leituras realizadas pelo personagem. Dizem que um autor, mesmo escrevendo ficção, deixa vazar, acontecimentos, fatos e particularidades de sua vida pessoal para o texto, assim, os personagens de Hemingway, por exemplo, trazem a marca de uma força interior descomunal, mas quase todos são feridos no corpo e na alma, carregando os traumas do próprio autor, ou em Beckett temos a redução das frases e do espaço, bem como a perdição, o não saber das coisas, ligadas a um episódio real, pois o escritor fora esfaqueado por um mendigo, quando o ajudava, sem qualquer motivo. Bem, o romance de Ricardo Ramos Filho pode ter esses “vazamentos” da realidade para a obra.
O livro é muito atual, vivendo os afastamentos, separações, a polaridade política dividindo o país, um retrato do cotidiano e dos pensamentos de um escritor esclarecido e antenado com as dificuldades e problemas inerentes ao mundo hodierno.
O planeta sofre com a pandemia e nosso país ainda mais com a incompetência proposital de uma administração política em que privilegia a corrupção, a mentira e a necropolítica, levando a muitas mortes que poderiam ser evitadas. O medo e o pânico tomando conta de todos.
“Toda poeira da calçada” trata-se de um grande romance que merece ser lido e apreciado por todos. Informativo, coerente, de uma leitura fluida, atual e agradável.
Fonte da imagem: Foto do autor.


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