Quando preciso resolver algo na Praça Saenz Peña, costumo traçar um roteiro circular a partir da minha casa, a fim de dar conta das tarefas de forma otimizada. No trajeto, aproveito para deixar o olhar à deriva, captando paisagem, clima, acontecimentos e gente. Numa dessas ocasiões, vi um adolescente abordando passantes diante de uma loja de biscoitos e guloseimas. Como só o percebi muito perto, não conseguiria desviar.
Era uma constatação embaraçosa. Afinal, ele tinha tanto direito à calçada quanto eu. Mas não pude evitar o sinal de alerta. Os poucos indivíduos violentos que circulam pelas ruas, se comparados ao total da população, nos infectam de medo e preconceito estendidos aos demais.
O garoto tinha quase a minha altura, embora não fosse corpulento. Podia nem ser tão forte, porém, dada a minha idade e forma física regular, caso fosse um trombadinha, eu me veria numa situação delicada.
Continuei andando, disposta a sacudir negativamente a cabeça, sem contato visual, a qualquer oferta ou pedido apresentados. No entanto, o que ouvi me fez parar.
— Tia, compra um pacote de balas aí na loja?
Tentei responder que não ia dar e seguir em frente. Ele, contudo, insistiu:
— É pra mim vender, tia. Eu podia tá roubando.
Seu argumento era batido, uma apelação. Ainda assim, me pegou desprevenida. Titubeei e fiz o oposto do que havia planejado.
— Tá certo. O que você quer mesmo?
— Uma caixa que nem essa.
Vi a embalagem vazia nas suas mãos, das que contêm uns vinte drops de hortelã. Devia ter terminado e ele tentava repor o estoque para continuar trabalhando. Entrei na loja. Ele me seguiu, apontando a estante das balas. Comprei o que me pediu e lhe entreguei na saída.
— Aqui está. Boa sorte nas vendas.
— Valeu, tia.
O rapaz me deu as costas e avançou pela praça, procurando clientes. Retomei minha rota, sem prestar atenção ao redor. Na cabeça, debatiam-se ideias conflitantes. Tomara, eu desejava, que ele não esteja vendendo balas para entregar a féria a algum explorador adulto. Por outro lado, será mesmo que tinha boa intenção, ou apenas apelou em cheio aos meus sentimentos e me fez de boba? Bem, seja como for, isso não dependia de mim.
Logo, outro pensamento brotou insidioso: se ele dividisse o arrecadado em duas partes, poderia usar uma para comprar outra caixa e ficar com o resto de lucro. Da forma como agia, recebendo cada novo pacote de alguém, só tinha ganhos, sem despesas.
De repente, me dei conta do ridículo desse raciocínio. Se nem membros de classes economicamente abastadas conseguiam controlar seus gastos, como cobrar de uma pessoa em situação de fragilidade tais reflexões? Crianças nesse contexto, embora possam até ter dificuldades em leitura e escrita, costumam dominar conceitos relacionados ao dinheiro. Eu não devia assumir sua atitude como falta de educação financeira. Considerando o parco retorno das vendas, era a opção inteligente possível para driblar uma engenharia social que condena tantos à precariedade. A vida ensina.


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