A sensação de finitude é arrebatadora no cotidiano repleto de correria, luta e busca pelo que nem sabemos ao certo.
Temos uma ideia de eternidade plena, uma vontade de fazer tudo, de planejar, controlar, pensar nas tantas tarefas que nos fazem refém de não parar… mas de repente algo acontece que repercute na alma, amolece as pernas, faz cessar o tempo e ensurdecer toda a velocidade.
Tudo parece paralisar e vagarosamente mostrar que despedidas acontecem, mesmo que não queiramos.
Em meio a uma anestesia ramificada, repleta de descrença do fato, algumas falas te induzem a manter o movimento para não sentir, não viver o momento, distrair a mente, e assim, colocar a dor para debaixo do tapete.
Mas desta vez eu quis viver, sentir aquela dor incandescente, que as vezes parecia arder e em outros momentos só fazia jorrar. Era como se a professora estivesse ensinando a arte do pulsar do sentimento dolorido do perder, e esta era a prova prática final.
Foram tantos florescimentos, desabrochares, casulos, metamorfoses e tempos de intimidade no decorrer de tantos anos trabalhados na poética de “terapiar”, que esta última tarefa precisava ser também deglutida e aprendida: viver o luto.
Eu parei, silenciei, chorei, lembrei, desacreditei mesmo sabendo da realidade…
E em meio a este turbilhão sinestésico acontecera algo estranho que nunca havia sentido antes… a dor era grande, contudo era amparada, sufocada e energizada por uma onda de gratidão que me percorria e aquecia o coração que naquele momento pulsava fraquinho.
Reparei que não houve massificação de postagens fúnebres, lamentadoras e sensacionalistas lotando as redes sociais, mas pontuais demonstrações de reconhecimento pelo amadurecimento emocional que ela causou em todos. E esse fato de não publicidade do sentimento não se deve à falta dele, mas sim ao cerne do sentir, à vivência do momento presente, tal qual o ser humano em sua essência, afinal, o sentimento mora dentro de cada um e não voltado a um molde pitoresco da sociedade moderna que o mede por likes e postagens em redes sociais.
Era como se todas aquelas sementes plantadas por ela em cada um de nós tivesse dado origem a uma única árvore e todos estivéssemos encostados em seu caule, coadunando da mesma sombra.
Ao redor deste momento, os contatos humanos refletiam a mesma gestação de um sentimento que emanava gratidão por ter tido a graça de viver na mesma época de uma mulher ímpar que não estava sendo exaltada pelo fato de ter nos deixado, mas que era cotidianamente acariciada por palavras que evidenciavam seu papel na sociedade e na transformação de gerações de pessoas que foram profundamente tocadas, emocionalmente amadurecidas e psicologicamente humanizadas na arte de serem melhores para o mundo.
Este foi o efeito Ana Lúcia em centenas de pessoas que conviveram com ela, alunos na arte de viver a simplicidade, aceitar suas características, sorrir para a vida mesmo quando o mundo diz “não”, tal qual água que permeia as pedras do riacho para seguir em frente, mostrando que as ondas de dores vem e vão, mas se revezam como os dias de sol e noites estreladas.
Relembrá-la é encher os pulmões de ar e trabalhar a respiração quando tudo parece sufocar. É voltar-se à essência da humanidade na característica singela de evidenciar o toque, o acolhimento e o olhar atencioso de quem entende sem julgamentos, acredita na dor do outro e a devolve transformada em afago impulsionador da modificação e evolução.
Esta despedida traz a orfandade de tantas formas revertida em conforto pela alegria de ter partilhado com ela o que de mais profundo existia na minha alma.
A sensação é de aperto complexamente agasalhado em uma vigorosa gratidão por tudo que ela tocou para me fazer florescer em metamorfose diária.
Ela acreditou em mim e me ouviu de uma forma pitoresca de Ana…
E eu desabrochei, arrisquei, maternei, amei meus pedaços, minha criança interna desamparada, minha adolescente sofrida, minhas diferenças e particularidades… trabalhei, escrevi, entendi, modifiquei e seguirei em modificação, pois lembrarei de nossas conversas regadas a gargalhadas, simplicidade, respeito, amizade, afeto, acolhimento e terapia poética sobre a vida…


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