Não serei ignorante, reconheço que tive uma infância privilegiada. Qualquer criança sonhava pertencer à família real de Ênfis. Quando eu era princesa, nunca precisei me preocupar com recursos básicos. Comida, dinheiro ou moradia não faltavam.
Mesmo assim, não aguentei o peso da coroa. Na verdade, a coroa em si não era problema, era peso do vestido. Para ter acesso aos privilégios, tinha que fingir. Não podia ser um príncipe, então minha única opção para permanecer na realeza era ser uma mulher.
— ********, coloque o seu melhor vestido. O príncipe Elias e sua família virão jantar à nossa mesa. — Meu pai, durante o almoço, ordenou sob o disfarce de uma sugestão.
Eu sabia qual era o objetivo desse jantar. O homem planejava me cortejar. Nosso casamento formaria uma aliança entre os reinos de Enfis e de Fésoro.
— Pai, você sabe que prefiro Sam… Agradeço pelo aviso. — Respondi seguido de um suspiro.
Lembro-me que aquele foi um longo dia como marionete… Meu corpo estava preso a cordas que o forçaram a se movimentar ao bel prazer de quem comandasse. Inicialmente, o rei Ramon cumpriu essa função de titereiro. Naquela noite, a transferência começou. Logo, meu futuro marido seria o responsável.
Assim, para não arranjar confusão, substituí as minhas calças pelo vestido favorito do meu pai. A vestimenta era de um tom safira que, de acordo com o rei, realçava meu cabelo rubro.
Ao observar aquela imagem refletida no espelho, tinha certeza de que se tratava de outra pessoa. Podia até ser uma princesa, mas não era eu.
— Muito prazer, princesa! Sou príncipe Elias do reino de Fésoro. Você está deslumbrante essa noite. Gostaria de conhecê-la melhor. — O nobre me cumprimentou, como se lesse um discurso, no jantar.
Ele era indiferente a quem estava na sua frente. Provavelmente, o loiro já havia conhecido tantas pretendentes que eu era só mais um rosto disforme.
Melhor que fosse assim.
Infelizmente, meu pai era mais influente do que todos os outros possíveis sogros. Poder… Era nisso que o matrimônio se baseava ao invés de amor. Para a política esse sentimento era insignificante. Assim, fui condenado escolhido como noiva.
Minha esperança de conhecer o amor romântico morreu entre algumas garfadas de carne e alguns goles de vinho.
Os sonhos eram o meu único conforto. Ali, eu podia voltar no tempo.
Na infância, ninguém negava a minha essência. O rei permitia o uso de calças em qualquer ocasião, incentivava meus treinos com espadas de madeira.
Hoje, se me concentrar, ainda escuto risadas do meu pai. Ele não ficou bravo ao ver aquele pequeno serzinho com seu velho chapéu. Depois de surrupiar o acessório, fiz um rabo de cavalo mal feito e o escondi sob o chapéu.
— Papai, logo vou ser o melhor guerreiro do reino! Sam, o príncipe guerreiro! — Declarei com a maior confiança após um dia de treino.
A partir daquela declaração, Ramon começou a utilizar o nome “Sam” e se referir a mim como seu filho. O mesmo valia aos serviçais, eu era “Sua Alteza Sam”.
Ainda que vários anos tenham se passado, nunca entendi porque tive essa liberdade. Talvez, fosse porque eu era o único legado de Greta, sua amada esposa falecida. Provavelmente, esse também foi o motivo pelo qual tudo foi arrancado de mais tarde.
Nunca me esquecerei daquele dia…
Era amanhã do meu aniversário de doze anos, acordei cheio de expectativa e energia para comemorar. Varri o quarto com os olhos à procura das responsáveis pelos meus trajes. Entretanto, encontrei meu pai no lugar.
Inicialmente, eu fui ingênuo. Imaginei que ele havia vindo fazer uma surpresa em pessoa, mas suas palavras destruíram essa ideia tola.
— ********, você precisa parar com isso. Agora, você já é uma moça, precisa aprender a comportar como tal. Só assim terá um casamento digno no futuro — Determinou o homem de modo calmo, porém incisivo.
Aquele nome…
Fazia tanto tempo que não escutava aquele nome. Quando o rei o proferiu, parecia estar se referindo a outra pessoa. Para a maioria, minha dor pode soar como drama, mas senti feridas sendo abertas a cada palavra. Isso, não podia ser falso.
— Por que não posso cumprir meus deveres como Sam, papai? Prometo que vou treinar muito até ser o melhor guerreiro de todos — Tentei barganhar enquanto lágrimas escorriam.
A expressão do homem à minha frente perdeu a suavidade. Seu maxilar fica cerrado por alguns segundos.
— Chega de ser uma criança mimada! A idade de brincar de espada e usar calças já passou. Esse tipo de vestimenta é para homens ou aberrações. Uma moça nobre não pode se rebaixar a esse nível. — Meu pai gritou, cada vez mais irado.
Nesse momento, escutei o som de algo quebrando. Procurei a origem do barulho, mas tudo estava intacto. Só fui perceber anos depois que se tratava do meu coração. Ele se fragmentou em milhares de pedaços.
Mesmo assim, Ramon nunca foi capaz de apagar quem eu era de verdade. A partir daquele dia, comecei a equilibrar meus desejos e meus deveres. Em ocasiões públicas, usava vestidos e era la “princesa”.
Dentro do castelo, apesar dos olhares fulminantes, permanecia de calça. Não me opunha à sua vontade de arranjar um marido para mim, porém não queria ser esposa e muito menos mãe. Ainda que escondido, continuei a treinar com minha espada.
Sempre que possível observava os cavaleiros e tentava reproduzir suas técnicas no meu quarto. Manusear espadas sem orientação não é seguro, mas era a minha única opção.
Apesar de ser um sonho recorrente, ainda ficava frustrado ao acordar. Nunca mais voltaria a ser criança, só restava a realidade. Precisava me conformar com a ideia de que casaria em um mês.
“Quem sabe Elias não seja tão rígido e não se importe muito com o que eu faço.”
Essa esperança de ter migalhas de liberdade era o que me mantinha firme durante os preparativos. Obviamente, não pude opinar em nada.
Minha professora de etiqueta repassou todas as lições sobre como ser uma esposa perfeita. O vestido escolhido para a cerimônia realçava demais a minha silhueta, causando extremo desconforto.
Não via a hora disso tudo acabar. Depois do casamento, eu poderia voltar para minhas roupas mais confortáveis. Pelo menos, era o que eu pensava…
Infelizmente, quando faltavam dois dias, minha ínfima esperança foi destruída. Ao retornar ao meu quarto, após o término da aula, procurei uma calça e meu único achado foi uma pilha de retalhos.
Eu fugia à cidade para vender algumas joias para ter dinheiro próprio e puder comprar peças de roupa.
Lágrimas brotaram e mancharam os restos de tecido. Se alguém tivesse presenciado aquela cena ficaria confuso. Não entenderia porque um membro da realeza, com dinheiro o suficiente para comprar quantas calças quisesse, chorava pelas peças destruídas.
O verdadeiro problema era a mensagem do rei Ramon por trás daquela inutilização das calças. Nunca mais teria liberdade. Após o casamento, seria obrigado a fingir enquanto eu vivesse.
Qualquer respiro foi tirado de mim. Logo, deixaria aquele castelo em direção ao rei de meu marido e precisaria abandonar minha velha espada.
O enorme aposento pareceu minúsculo enquanto chorava até cair no sono.
Pela primeira vez em muitos anos, minha mãe surgiu em meus sonhos. O que ela diria se estivesse ao meu lado naquele momento? Apesar de desejar que ela procurasse entender os meus sentimentos, não posso afirmar com certeza. Nunca a conheci, pois Greta faleceu no meu parto.
O pouco que sei vem de uma pintura gasta e algumas poucas informações mencionadas pelos serviçais. Sempre comentam sobre nossas semelhanças e como minha mãe era gentil. Eles lamentam o sofrimento do rei, pelo que contam, meu pai a amava muito e perdê-la o transformou.
Em um espasmo, acordei durante a madrugada. Apesar de tantas dúvidas e inseguranças, tinha uma certeza: precisava fugir antes do fatídico matrimônio.
Não conseguia enxergar felicidade no meu futuro se seguisse em frente. Uma existência infeliz era o que me aguardava. Certamente, não aguentaria sobreviver assim, com o desejo de viver e não poder.
Com esse pensamento em mente, comecei a planejar a minha fuga. Peguei as minhas joias restantes para possuir algum dinheiro, vesti uma capa desgastada que uso para não chamar muita atenção e tirei minha espada de seu esconderijo. A arma era antiga, estava um pouco enferrujada quando a encontrei abandonada na volta do campo de treino, mas com um pouco de limpeza foi possível recuperá-la.
No melhor cenário, não seria preciso desembainhar a espada, mas não podia confiar nisso. Era melhor estar preparado para o pior possível.
Na véspera da cerimônia, eu escapei do local em que morei durante toda minha vida. A brisa noturna na minha nuca nua foi uma das sensações marcantes desse momento. Um pouco antes de deixar meu quarto cortei meu cabelo de forma intensa como sua cor de fogo.
Primeiramente, tomei essa decisão porque seria mais prático cuidar desse modo, mas conforme fui passando a espada nas mechas de cabelo percebi que fiquei mais confortável com a minha imagem. Esse corte de amarras seria meu renascimento como fênix.
Comprei uma calça nova e a vesti ao chegar na cidade, assim fui em busca de um pouso para essa noite. Dificilmente, conseguiria me hospedar em algum hotel sem que meu pai fosse avisado.
Após vagar durante horas encontrei um celeiro aparentemente abandonado. Seu estado de conservação era precário, mas era um abrigo do frio noturno e da chuva que começou a pouco tempo. Apesar do medo que o rei me encontrasse, o cansaço venceu e eu cai no sono.
Despertei com movimentações no local. Demorei alguns segundos para entender o que estava acontecendo ao meu redor devido a névoa sonolenta.
— Pare… Eu não quero fazer isso… — Protestou uma mulher com pele marrom e olhos verdes como uma esmeralda
Outra pessoa estava a pressionando contra a parede velha de madeira.
— Não tenho paciência para uma Zé ninguém se fazendo de difícil! — O homem de meia idade exclamou.
Esse ser forçou o vestido vermelho da mulher subir até que sua roupa íntima começou a ser exposta ao mesmo tempo que ele abaixava as calças.
Não podia testemunhar as lágrimas desesperadas indo ao encontro da terra sem tomar nenhuma atitude, por esse motivo desembainhei minha espada e avancei.
Apesar da diferença de porte entre mim e aquele criminoso, o meu impulso fez com o que o encontro de nossos corpos o tirasse de cima da garota.
— Mas o que é isso? — Resmungou o grisalho ao se desequilibrar.
A jovem, que aparentava ter uma idade semelhante à minha, aproveitou a brecha e se afastou.
Antes daquele dia, nunca havia utilizado o meu treinamento em uma situação real, então o frenesi da ação dificultou a clareza dos meus movimentos.
O outro tirou vantagem da minha inexperiência em brigas e agarrou meu braço conseguindo recuperar a estabilidade e ao mesmo tempo em que eu perdi a minha.
O choque das costas contra o chão de terra arrancou o ar dos perder o ar de meus pulmões. Entretanto, após me derrubar, o criminoso perdeu o foco. Sua atenção estava em localizar a vítima. Eu atribuí o esquecimento da minha presença ao bafo forte de bebida vindo de sua boca.
Senti meu corpo formigar diante da decisão que eu estava prestes a tomar. Porém, não foi preciso mais de instante até a minha arma penetrar o órgão. Sua peça íntima foi tingida de um vermelho mais escuro do que a vestimenta da mulher apavorada.
— Vamos sair daqui! — Chamei a moça ao ouvir os gemidos do homem caído.
A desconhecida estava paralisada, então tomei sua mão e a guiei para longe daquela cena.
— Não tenho palavras para agradecer. Qual é o nome do guerreiro que derrotou meu agressor? – Perguntou a mulher quando o choque passou.
Permaneci em silêncio por alguns segundos. Não respondi imediatamente porque uma faísca se acendeu dentro de mim ao perceber que alguém havia me visto como eu realmente era.
— Pode me chamar de Sam e a senhorita? — Disse eufórico e hesitante após tantos anos reprimido.
— É um nome lindo. Combina com você. Eu sou a Amélia. — Ela contou.
Fiquei sem reação porque esse foi o primeiro elogio verdadeiro que escutei em mais de uma década. Um baita clichê, eu sei, mas Amélia adora histórias românticas.
Esse foi o início da nossa história juntos. Naquele instante, senti o amor que eu sempre fantasiei desde pequeno.
Nada era como um conto de fadas, nós ainda precisamos batalhar muito até alcançar o conforto de uma vida relativamente tranquila.
No primeiro ano, quando éramos apenas amigos, aconteceram diversas buscas. Meu rosto estava em todos os lugares do reino com uma recompensa generosa. Assim, nós fomos obrigados a deixar Ênfis.
Com o passar do tempo, o Rei Ramon perdeu as esperanças e desistiu. A notícia do falecimento de sua única herdeira se espalhou rapidamente.
Não se tratava de uma mentira, pois a princesa realmente morreu naquela noite. Só restava o guerreiro.
Instagram do autor: @umautorautista
Esbarrei nesse conto, escrito em 2024, e resolvi compartilhar com vocês.


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