O restaurante sempre lotava aos finais de semana. Com uma vista esplendorosa para a Lagoa Rodrigo de Freitas, era um dos mais requisitados daquele pedaço de paraíso. A lista de reserva enchia cedo, e nem sempre era fácil arrumar uma vaga para os clientes habituais, pois apesar de tentar fazer uma reserva de última hora, ainda se valiam de que “sou um cliente habitué, me consiga uma mesa”. A rostess (a recepcionista) que desse seu jeito, o patrão não queria que perdesse um cliente sequer.
Quando entrei, ela foi logo me falando:
– Já tá lotado, hein! Se prepara!
Eu era o chefe de fila, responsável pelo salão, então acabava que sobrava pra mim também a organização da lista. Sendo assim, peguei a tal lista e saí distribuindo as placas de reserva nas mesas. Os clientes mais importantes ou os habitués ficavam nas janelas, é claro; os desconhecidos, colocávamos onde desse certo. Devolvi a lista para a hostess, que a atualizou de acordo com as minhas colocações. Cada cliente em sua mesa. Perfeito.
A pauleira começou. Chega cliente; senta cliente; atende mesa; fecha mesa; senta cliente de novo; o pedido de uma mesa atrasa; a conta de outra demora; um cliente quer uma mesa na janela e não tem… é aquela confusão. Restaurante em final de semana é assim: um inferno.
Fechávamos às duas da manhã (o Rio vivia uma onda de assaltos a restaurantes quando estavam fechando, por isso tínhamos um horário determinado, mesmo nos finais de semana. Naquela época não tinha Pix, ainda havia muito pagamento em dinheiro e cheque). Em frente, no canteiro que dividia a avenida, havia um relógio digital de rua que marcava a hora e a temperatura, e eu sempre ajustava meu relógio por ele. Acho que gostava de tê-lo como referência.
Além da pauleira costumaz de final de semana, tínhamos um problema sério: um cliente que sempre chegava no finalzinho da noite. Ele gostava do restaurante vazio, por isso surgia quando a casa já estava fechando, o que irritava todos nós. Não há nada pior do que alguém chegar quando o restaurante está encerrando, principalmente nos finais de semana. Mas ele sempre fazia isso. Então, fiquei rezando pra que ele não aparecesse naquela noite. Eu era um dos que estava dobrando serviço e estava bastante cansado.
Pois é, quando a pauleira passou e pudemos respirar melhor, comecei a liberar os garçons que estavam dobrando servindo e os que iriam trabalhar cedo no dia seguinte. De repente, já pertinho de fechar, o segurança entrou no salão e me falou:
– Chefe, o pela-saco tá lá fora com uma mulher. Não deixa mais ele entrar não. A casa tá fechando. Já sabe como ele é. Se entrar, vamos sair de manhã.
Pela-saco é aquele tipo de cliente chato, que chega em cima da hora, reclama de tudo, não dá gorjeta, é exigente demais, sai tarde…
– Deixa comigo – respondi.
Olhei o relógio lá fora. Eram quase duas horas. Adiantei meu relógio e fui pra porta, pois sabia que ele iria querer entrar nos minutos finais.
De repente…
– Mesa pra dois.
– Desculpa, senhor, mas acabamos de fechar. Fechamos às duas horas em ponto – respondi.
– Mas ainda faltam dois minutos – e apontou para o relógio da rua.
– A hora é marcada pelo meu relógio. E já são duas horas e dois minutos. – Apontei para o relógio lá fora. – Esse daí sempre atrasa. Volte amanhã que teremos prazer em atendê-lo. Boa noite, senhor.
Tranquei a porta. Ele resmungou qualquer coisa, mas não dei ouvidos. Quando olhei pra trás, estava toda a equipe vibrando, da cozinha ao salão, todos sentindo-se vingados pelas várias noites que o pela-saco nos fez sair quase de manhã.
Fiquei tranquilo, pois com aquela vibração toda, o patrão jamais ficaria sabendo da minha atitude.


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