Era 6 de janeiro.
E o céu parecia maior naquela noite,
como se as estrelas soubessem primeiro
o que a tua boca ainda guardava.
No rádio do carro,
uma música qualquer tentava preencher o silêncio,
mas teu sorriso era mais alto que qualquer refrão.
Lembro das luzes atravessando teu rosto,
dos teus dedos puxando os pelos da minha barba
que mal acabaram de nascer,
e do jeito que tu me olhava,
como quem encontra casa
num lugar onde nunca morou.
A cidade seguia correndo lá fora,
mas dentro daquele carro
o tempo resolveu sentar com a gente.
Dividimos comida japonesa,
rimos de coisas pequenas,
e eu pensava que amar talvez fosse isso:
guardar alguém nos detalhes.
Na marca do teu perfume no banco do passageiro.
Na estação de rádio que tu escolhia.
Na forma como teu joelho encostava no meu
sem pedir licença.
Quando tu segurou minha mão,
o mundo inteiro pareceu caber ali.
E eu desejei que a noite demorasse.
Que a música nunca acabasse.
Que janeiro esquecesse de passar.
Então vieram aquelas palavras.
Simples.
Bonitas.
Inevitáveis.
E enquanto as estrelas acendiam acima de nós,
eu senti nosso amor nascer
feito constelação:
sem fazer barulho,
mas iluminando tudo.
Desde então, toda vez que janeiro retorna,
eu volto também.
Para aquele carro.
Para aquele céu.
Para aquele rádio.
Para tua mão perdida na minha barba.
E para o instante exato
em que o universo abriu espaço entre duas estrelas
só para escrever
o começo de nós.
Engraçado.
Naquela noite eu acreditava
que as constelações eram eternas.
Hoje descubro
que algumas estrelas brilham apenas o suficiente
para ensinar o caminho de volta para a saudade.
E ainda assim,
se me perguntassem qual foi o dia mais bonito da minha vida,
eu responderia sem hesitar:
6 de janeiro.
Porque certos amores acabam,
mas continuam acontecendo
dentro da gente.
E, se eu puder pedir uma coisa ao tempo,
que todos os dias sejam 6 de janeiro.


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