No sábado passado, recebi a notícia da morte de um vizinho. Fiquei consternada. Não tínhamos intimidade, nem o via muito, mas me havia cativado por seu jeito simples, sempre com um sorriso no rosto.
Ele era um japonês de oitenta e três anos. Morava sozinho e tinha adotado, no seu cotidiano, uma filosofia despreocupada. Costumava acordar tarde, sair para passear vestindo chinelos, bermuda, camiseta, e fones no ouvido. Para além do sotaque, algo, contudo, destoava dessa sua conduta. Ao se dirigir a mim, conservava uma atitude cerimoniosa. Eu, mais nova que ele quase vinte anos, era tratada por senhora e cumprimentada com pequenas reverências.
Certa vez, me falou sobre sua infância e vinda para o Brasil. Seu Yasuo nasceu numa possessão japonesa, na China, onde o pai trabalhava como funcionário do império na época da Segunda Guerra Mundial. Contou-me que, durante um bombardeio, ficou escondido num abrigo antiaéreo, aconchegado no colo da mãe. Considerando as datas, suponho serem estas, mais do que lembranças, impressões nascidas de comentários dos mais velhos. Em todo caso, só posso imaginar o horror da cena. O barulho, a poeira dos escombros, os gritos e choros, os ferimentos, a perplexidade e o medo, nele e ao seu redor.
A vida no Japão pós guerra foi marcada por fome e todo tipo de precariedade. Assim, o menino órfão de dez anos emigrou para o Brasil, onde havia parentes e conhecidos, numa colônia japonesa no estado do Rio de Janeiro. Creio que deva ter sido um período bem difícil. Ressentimentos marcam corações. Muita gente devia sentir desconforto e raiva diante dos inimigos do Eixo, embora, claro, isso não pudesse ser aplicado a uma criança, menos ainda, após o fim da guerra. Porém, receio e rancor são, em geral, irracionais.
Seja como for, ele sobreviveu, cresceu, estudou, trabalhou, se casou e veio parar aqui, no meu edifício. Terá superado várias vicissitudes, como ocorre com tantas pessoas. A última vez que o encontrei, estava andando e falando com dificuldade. Doente, já não descia do apartamento com frequência.
Embora não saiba se é correto ou não, descobri na internet que seu nome significa “homem pacífico”. Desconheço detalhes de sua vida. Parece-me, no entanto, um significado adequado àquele indivíduo com quem conversei algumas vezes. O sorriso se vai, mas deixa, nos que conviveram com ele, as recordações e uma sensação de paz.
ALERTA IMPORTANTE: Esta crônica foi criada e redigida, na íntegra, por uma pessoa de carne, osso e ideias. Não houve IA envolvida.


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