No quarto escuro mora o meu cansaço,
feito fumaça fria pelo espaço,
um eco mudo preso na parede,
um coração cansado que já cede.
As horas passam lentas na janela,
a chuva risca o vidro em aquarela,
e eu, sentado à sombra da lembrança,
perdi no tempo a última esperança.
Carrego dentro um poço silencioso,
profundo, antigo, amargo e nebuloso,
um mar sem porto, um céu sem claridade,
um corpo inteiro afogado em saudade.
Há dias em que o peito vira inverno,
e cada pensamento é mais eterno,
como se a alma fosse abandonada
numa estação de trem despovoada.
As vozes ao redor parecem longe,
como um sino perdido sobre um monte,
e os risos que já foram tão sinceros
viraram folhas secas nos canteiros.
Procuro algum sentido pelas ruas,
sob postes frios, sob estrelas nuas,
mas tudo que encontro é o reflexo
de um rosto sem abrigo e sem nexo.
O vazio mora atrás dos meus olhos,
crescendo silencioso entre escombros,
fazendo do silêncio uma corrente,
prendendo o coração lentamente.
Às vezes lembro antigos dias claros,
das tardes leves, simples e raras,
quando viver parecia tão pequeno
quanto correr descalço pelo terreno.
Mas o tempo, ladrão das inocências,
levou consigo as velhas transparências,
e deixou apenas este abandono
sentado quieto ao lado do meu sono.
Há lágrimas escondidas na garganta,
uma tristeza funda que me espanta,
porque não grita, não destrói, não chama,
apenas queima devagar a chama.
As noites têm o gosto da distância,
de cartas esquecidas na estância.
E dói não pela força da ferida,
mas pela ausência estranha da vida.
O mundo segue aceso lá fora,
enquanto algo em mim desaba e chora,
e cada rosto alegre que aparece
me lembra o quanto a alma enfraquece.
Talvez a dor seja uma casa antiga,
com portas tortas e esperança tímida,
onde eu caminho só pelos corredores
guardando restos pálidos de flores.
Ainda assim, no fundo mais profundo,
existe algo resistindo ao mundo,
uma centelha fraca e quase muda
que, mesmo ferida, ainda me ajuda.
Porque até o vazio mais severo,
que cobre a alma com silêncio austero,
não consegue apagar completamente
o sonho de voltar a estar presente.
E mesmo triste, mesmo quebrado,
com o peito em mil pedaços espalhado,
eu sigo entre as ruínas da memória
tentando reencontrar alguma história.
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