Início da tarde de uma quarta-feira, o centro da cidade estava pouco movimentado para mais um dia útil. Andava com tranquilidade, pois ainda era cedo para o horário que havia marcado com uma velha amiga.
Entrei em uma loja de importados com a intenção de comprar algo diferente, um mimo, para animá-la. Incrível quando estamos com tempo. Podemos observar com detalhes tudo ao nosso redor. Uma senhora de meia-idade passou à minha frente no balcão de atendimento e, sem nenhum constrangimento pela indelicadeza, fez seus pedidos com ar de autoridade. Saiu apressadamente, esquecendo um envelope de ofício sobre a bancada de vidro. Eu disse à vendedora que entregaria. Corri com o pesado pacote, consegui alcançá-la antes de entrar no carro, porque o chofer já aguardava com a porta aberta.
Quando ela me viu segurando o tal envelope, não sorriu e tampouco agradeceu. Ao contrário, me olhou como se eu estivesse cometendo um delito! Lembrei-me de uma frase antiga que minha mãe sempre falava: “não exija a educação dos outros, demonstre a sua.”
Dei um frouxo riso e segui pensando: deve ser uma pessoa de “um certo poder’”. Há muito que não via alguém com motorista particular de terno, exceto os políticos. Nesse momento meu celular tocou; minha amiga, com voz de choro, me pediu desculpas e avisou que não poderia vir, porque não tinha terminado a arrumação. Com o divórcio, ela mudou-se para uma casa menor em outro bairro da região oceânica de Niterói.
Muito preocupada com o seu estado emocional, pedi o novo endereço e fui ao seu encontro. Cheguei à rua, mas a numeração não correspondia. Tentei ligar, o telefone constava como desligado. Olhei para os lados à procura de alguém para informação. Como sempre fui apaixonada por flores, não deixei de notar uma linda casa, cercada por grades douradas com um jardim impecável, que tomava a metade do quarteirão. Percebi uma fumaça subindo. Seria um incêndio? – pensei. Entrei pela rua lateral e pasmem: a mesma senhora, segurando aquele envelope, queimava folha por folha em uma churrasqueira móvel!
Fui fulminada por um olhar estarrecedor! Ela apertou o envelope contra seu peito e entrou pelos fundos da mansão. Senti vontade de rir, me contive. Logo depois, avistei minha amiga no final da rua. Após um abraço demorado, falei sobre a senhora da esquina; finalmente minha amiga riu e muito!
Ivone Rosa
@profaivonerosa
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