Existem acontecimentos que fogem ao padrão esperado e surpreendem, simplesmente, por nos fixarmos em ideias preconcebidas. É o caso de generalizações, como achar que cidades grandes são selvas de concreto e aço incompatíveis com a vida silvestre.
Isso pode valer para muitos lugares, não nego. No entanto, o Rio de Janeiro, apesar de sua enorme concentração populacional e problemas urbanos, apresenta exuberante fauna e flora em diversos pontos de seu território. Atribuo o fato à Floresta da Tijuca, recuperada no século XIX, ao mar e a zonas de preservação ambiental.
Vários bairros são bem arborizados e, em parques, é possível encontrar tucanos, macacos, quatis, sabiás, periquitos, papagaios, maritacas, bem-te-vis, preguiças, cobras, entre outros. Mas há, também, espécies exóticas, introduzidas ao longo da história, como pombos e certos saguis.
A proximidade com a natureza favorece intercâmbios entre plantas, bichos e pessoas. Há situações indesejáveis, pelos riscos à saúde ou às edificações. Outras, no entanto, acabam trazendo poesia à vida conturbada e acelerada da metrópole.
Um desses toques poéticos me foi apresentado por minha irmã. No início de agosto, ela me mandou uma mensagem, dizendo que tinha uma nova hóspede. Fiquei pensando sobre se seria algo bom ou ruim, até receber uma foto. Num vaso de plantas vazio, pendurado na área de serviço, uma rolinha tinha decidido fazer seu ninho. Dias depois, dois pequenos ovos estavam aconchegados entre as palhas. Finalmente, os filhotes nasceram, ainda com a pelugem rala e desengonçados, mas como uma promessa.
Quando contei o fato ao meu sogro, ele disse que, a partir de agora, a ave voltaria sempre àquele local. Fazia sentido. Num recanto frequentado por saguis, corujas, morcegos, ocasionais gatos de rua e ratazanas, há sempre um risco para as crias. Ter o ninho num apartamento, abrigado da chuva e do vento, porém com bastante ar livre e acesso aos alimentos no entorno, parecia uma escolha sábia.
Dizem que a primavera é o período do ano no qual animais costumam acasalar e ter filhotes. Ainda estamos no inverno, eu sei. Contudo, considerando as mudanças climáticas e a irregularidade nas condições do tempo, não estranharia se alguns hábitos começassem a se modificar. Então, a rolinha hóspede e seus dois filhos são uma antecipação primaveril, um convite de festejo à vida e uma lembrança de que somos todos parte da natureza.


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