Cabelos brancos. O corpo meio curvado. Caminhar lento e olhar curto, embora ainda brilhante, grata pelo dom da vida. As rugas na face mostram as décadas caminhadas entre alegrias e dificuldades, frutos de uma labuta constante entre o sobreviver e o criar filhos – sete, e mais dois que foram ceifados ainda na tenra infância.
A casa amanheceu barulhenta com o falar e as gargalhadas de filhos, netos e bisnetos dando-lhes os parabéns. 80 anos! Sim, 80 anos de luta, perdas e glórias, que a forjaram sob o sol e a chuva do sertão nordestino. Esta é dona Rita, minha mãe, desconhecedora das letras, mas com doutorado nos saberes da vida. Sua sabedoria veio da experiência adquirida ao longo de décadas, das noites mal dormidas cuidando de filhos e das dificuldades que a vida oferece àqueles que desconhecem o conforto da riqueza..
Hoje ela completa 80 anos. De riso estampado no rosto, levanta-se cedo para cuidar da rotina. “Hoje está dispensada”, diz uma filha, “vá descansar”. Como? Descanso, para ela, é uma palavra que só existe no dicionário, e como ela desconhece as letras, nem lá tem a oportunidade de conhecer.
A pia, o fogão, o café, de tudo isso foi dispensada, embora a contragosto. Mas ela fica lá, de um lado pro outro à procura de algo para fazer. Não encontra. Senta um pouco. “Parabéns!” são ouvidos um atrás do outro. Abraços, beijos, presentes. A octogenária Dona Rita olha pro tempo, buscando as velhas lembranças amareladas pelo correr dos anos. O que será que ele pensa? Do que será que ela lembra? O que será que não lhe veio na memória? São mais de 45 mil dias para recordar. Impossível lembrar de tudo. Por isso, ela olha o vazio, escavaca a memória, imaginando o quê, não se sabe. Quem sabe agradece pela dádiva da vida, dos filhos e filhas e netos e netas e bisnetos e bisnetas e até tataraneto.
Neste momento, enquanto escrevo esta crônica, eu gostaria de ser um narrador onisciente, mas é melhor assim. Pensamentos são pessoais, não temos o direito de saber o que as pessoas pensam, ou desejam, ou sonham; a menos que queiram compartilhá-los. Contudo, eu gostaria de saber se ela tem a noção de quantas vidas floresceram dela; de quantos risos surgiram de seu rosto; de quantas lágrimas brotaram de seus olhos; de quantos sonhos se realizaram e de quantos não puderam florescer ao longo de tantos dias de vida.
Talvez isso nem importa para ela. Às vezes, olho pra essa senhora e tenho a impressão de que tudo foi tão natural, tão simples, tão normal, como se ela fosse de ferro; de humano, apenas o coração.
Parabéns, Dona Rita! O aniversário é seu, mas fui eu quem ganhou o maior presente: tê-la como minha mãe.
Feliz aniversário!


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