Uma viagem pela memória, ancestralidade e identidade
“Aos que herdaram a saudade antes mesmo de a conhecer.”
Nota do autor:
Henda significa saudade. Neste poema, a palavra assume uma dimensão simbólica: representa a ligação entre a memória, a terra, os antepassados e a identidade de um povo. É a saudade não apenas como sentimento individual, mas como herança coletiva transmitida pelas raízes e pelas histórias daqueles que vieram antes.
Como um vento impetuoso senti
raios reluzentes beijando o capim,
ao alvorecer, sem esperança de mim…
Para quê esperar?
Procuro-me, enfim.
HENDA!
São saudades enfadonhas de ricas pedras de castiçais,
cravadas na minha memória,
repletas de gafanhotos estéreis
que plantam redes de buquês sem flores.
Ai! Mas que saudade…
HENDA!
Talvez um dia, Dito Zé, voltes para me relembrar.
Sobre as correntezas do Ngulungo, ali celebro
o meu segundo nascimento,
com o fio negreiro.
Camacove, o imponente,
esqueceu-se do pacto.
HENDA!
Ngodofuame!
De tanto vento arrastando poeira,
não tenho óculos para dela me proteger.
Hambe kaputo weza di ni correio…
Maka mavulu.
Kio nguino fua,
mu nguibanza kio mua messena.
HENDA!
Wawe Mwangole!
Tua fu kiavulu.
São saudades das minhas ancestralidades,
nos mussekes.
Vivo preso às minhas lembranças,
mas porquê?
Olha que a vida vive-se vivendo,
tal como a estética do belo,
onde até o feio se torna belo.
HENDA!
São saudades do calção roto no rabo,
da bola de massuessua,
do banho no thuvu-diavide.
São saudades do jimbidi,
da canjica,
do dikongue.
São saudades que herdei.
Da minha linda terra.
Dizia Kota Bastos:
“Não és de meia dúzia.”
HENDA!
Ouço ainda os tambores da distância,
ecoando nas margens da lembrança.
Chamam por mim os que vieram antes,
guardadores de histórias e segredos,
sementes lançadas ao tempo
que continuam a florescer em mim.
O anseio que tenho por ti
é que continues a regar
as sementes plantadas com esperança.
Nunca tiveste a beleza que tens hoje,
mas que beleza?
São várias as que a Mãe Natureza
sempre te concedeu.
Amanhã será outro dia.
Brilha.
Procuro-te no livro dos segredos sem olhos.
Brilha…
No escuro, brilha.
Brilha nas raízes
que o tempo não levou.
Brilha na memória
dos teus ancestrais.
Brilha no vento
que te chama pelo nome.
E quando a poeira assentar,
ergue-te.
Porque nasceste para brilhar.
Adão Ferreira Correia Correia


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