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Projeto 16h – Edição Especial – Jul.26 – (cRÔNICA) – O Último lance – Explicando o Jogo do Sistema de coisas – Altamir Lopes

O Jogo está montado. Jogadores posicionados. Estão em posições aparentemente opostas, mas só aparentemente. Não são inimigos. São apenas jogadores. Um necessita do outro para que o jogo se inicie e permaneça vivo. E as peças sequer possuem consciência de que estão sendo movimentadas.

Os peões vão à frente. Forçados, empurrados, destinados a fazerem apenas esse movimento. Entretanto, para o que tiver a sorte de estar no lugar certo, no momento certo, poderá até fazer um movimento um pouco maior comparado a outros peões, mas somente no início do jogo. Apenas uma chance. Nenhum deles pode recuar, voltar atrás. Sua velocidade é limitada e são extremamente frágeis. O peão que for colocado no alto do sistema poderá se transformar em quem ele quiser, ou em quem alguém ordenar que ele se transforme. Talvez seja esse um dos motivos no qual, numa ávida busca pelo poder, eles se matam e, normalmente, sejam os primeiros a morrer. Pobres peões. Estão em maior número, mas não tem poder com relevância para o sistema.

As torres como qualquer outra construção, podem ir apenas para frente – ratificando o seu valor imobiliário, financeiro, comercial – ou para trás, lembrando a fugacidade e a fragilidade do valor de um bem material. O seu poder pode ser avassalador para quem detém controle sobre ela. Mas sua queda, quando ocorrida, é trágica e irreparável. Torres são encaradas como meio de proteção. Pena que nesse sistema, é uma proteção frágil demais.

Os bispos, não são capazes de passar por cima de todos os outros, mas caminham na transversalidade do jogo. Passeando diagonalmente no tabuleiro da vida e mostrando o seu poder a quem quiser ouvir ou se aproveitar dele. E aproveitam-se desse poder, de forma imperativa ou velada – Percebendo ou não. Os Bispos possuem um poder peculiar, tão amplo quanto sua posição no tabuleiro, atingindo muitos ou poucos, dependendo apenas do oportunismo.

O cavalo, tal como instrumento de guerra, revela o seu poder estrategicamente contraditório tanto para seu uso bélico quanto pacificador. É difícil de entender seus movimentos e seja qual for a ótica pela qual ele é percebido – Ele sempre passa por cima de tudo e de todos que cruzam o seu caminho. O cavalo tem um poder que o sistema respeita (ou teme?).

A Rainha, ah, a Rainha. Ela pode tudo. Sempre pôde. Pode ir para onde quiser dentro do jogo. Se ela conquistou isso ou simplesmente tal poder lhe foi concedido, não interessa. Com essa conquista, recebeu um pacote de responsabilidade tão grande, que capturá-la ou imobilizá-la é meio caminho andado para a derrota dos seus súditos. Ela precisa ser protegida, mas ela precisa se movimentar nesse sistema… Ó, paradoxo! Rainha, qual é a sua identidade?

E o Rei – Grande ou pequeno Rei! Tem o título, mas nem sempre tem o poder. Pode fazer o que quiser, ir para onde quiser, voltar atrás (nas ações e nas palavras) quando quiser. Mas, muitas vezes – senão todas – na verdade são todos os outros que determinam o que ele tem de querer e fazer. E se ele quiser se arriscar, ele pode – problema dele (e dos seus súditos). Ele pode fazer o que quiser. Mas todos vão pagar o preço de sua arrogância. Ou da sua coragem. Que Rei é ele? Quem é o Verdadeiro Rei nesse sistema, quando até o próprio é movimentado por mãos alienígenas?

E no chão do tabuleiro da vida, onde a verdade absoluta e a mentira deslavada são representadas por cores contrastantes – preto no branco ou branco no preto – sem lugar pra um tom  intermediário, uma verdade relativa, um meio-tom, um acinzentado ou um meio termo, as peças do mar da Humanidade escolhem em qual cor ou caminho irão dar seus pulos e navegarão.

E esse sistema estrategicamente montado tal qual um caos institucionalizado gera muitas possibilidades de jogadas, quase infinitas, como muitos vírus, todos os dias. Vírus forjados, que afetam os movimentos de cada peça. Mas que se prestam ao mesmo objetivo final – determinar quem vence e quem perde.

E após muitos movimentos, e muitas baixas, o sistema dá um xeque-mate em si mesmo.

Ou será um Cheque sem fundos e um Mate ou morra?

O jogo do sistemas de coisas não pode ser reinicializado. Ele só pode ser recriado nos mesmos movimentos, mesmos lugares, com exatamente os mesmos personagens.

Ele só acabará quando a mesa virar. O tabuleiro for totalmente substituído, e principalmente, não existirem mais jogadores querendo jogar esse jogo. Esse jogo do sistema de coisas somente deixará de existir quando for substituído por algo muito superior, e que não é um jogo de peças marcadas pelo próprio sistema.


Quando esse jogo vai parar de ser jogado?


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Criada em 2020 pelo professor e poeta Renato Cardoso, a Revista Entre Poetas & Poesias é um periódico digital dedicado à valorização da literatura e da arte em suas múltiplas expressões. Mais que uma revista, é um espaço de conexão entre leitores e autores, entre a sensibilidade poética e a reflexão cotidiana.

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