Sempre fui chato, reconheço, mas tenho piorado muito com os anos. Encasqueto com tudo, coisas mínimas que, certamente, passam despercebidas pelos que levam a vida com leveza. Aliás, já avalio mal os que usam desapercebida em situação semelhante.
Torço o nariz para quem fica girando a colherzinha infinitamente dentro da xícara de café quente para esfriá-lo ou, pior, que sopra o café repetidas vezes antes de levá-lo à boca. Se a essas duas coisas soma-se o dedinho mindinho esticado quando do içamento da chávena, aí, levanto e vou embora, sem dar explicações.
Tenho verdadeiro horror dos que falam altíssimo comigo, talvez imaginando que eu seja surdo, o que certamente me acontecerá, se eu continuar convivendo com gente assim. Igual reação eu tenho quando alguém começa a me contar uma história e reproduz – ipsis litteris – um diálogo áspero que teve, por exemplo, com um colega de trabalho, com todas as inflexões e todos os xingamentos usados no original. O negócio já seria por si só irritante, mas piora quando o narrador reproduz as falas para mim, com toda a virulência e ódio do momento original, sem avisar aos que estão ao lado, que a fala dele é uma reprodução do que foi dito a outra pessoa, em outro contexto.
Uma vez, uma senhora, bem velhinha, entrou no elevador no momento em que uma amiga dizia para mim, a dois palmos de distância, com a mesma dramaticidade, lágrimas e perdigotos, o que dissera ao escroto do ex-companheiro, quando decidiu se separar. Antes de sair da cabine, a idosa voltou-se na minha direção e me espancou com o olhar, agressão que deveria, na verdade, ser dirigida ao crápula do marido tóxico da história. Eu me senti como essas atrizes que interpretam vilãs nas novelas e ficam impedidas de sair às ruas, com medo de serem agredidas pelos telespectadores.
Tem coisa à beça que me incomoda: homem que coça o saco e/ou ajeita o bigulim em público, sem o menor constrangimento; o sujeito que assoa o nariz sem lenço, em qualquer ambiente, só tapando uma narina e provocando a erupção de catarro pela outra, numa catapulta de vírus perdidos, ejetados a grandes distâncias; a pessoa que enxuga o suor do rosto e assoa o nariz com uma toalhinha e a pendura, úmida e fedorenta, no ombro; indivíduos que se desfazem de latas – e guardanapos, e embalagens diversas, e maços de cigarros, e guimbas no meio da rua -, sem a menor cerimônia; os que maltratam animais; os que não oferecem o lugar no transporte público aos mais velhos ou necessitados, motoristas que dirigem olhando celular… A lista é grande!
Outra coisa: ando muito impaciente com quem passeia com o cachorro, distraidamente, pensando em outra coisa, sem prestar atenção ao que o pet faz ali, nas suas barbas. Muitas vezes espero, sem a menor paciência, que a cidadã recolha o cordão umbilical que a liga ao animalzinho, para que eu possa seguir o meu caminho, sem precisar ir para o meio da rua, correndo o risco de ser atropelado, para continuar a caminhada.
Me aborrece esse pessoal que anda na rua em bandos – trios, quartetos, quintetos -, todos caminhando, um ao lado do outro, ocupando sem cerimônia toda a calçada, do meio-fio à parede, conversando, apontando, namorando, zoando, sem se importar com que vem atrás, querendo só passar e seguir a vida em paz.
Da mesma forma, causa-me irritação os que falam alto no celular, qualquer que seja o local em que estejam. Já testemunhei no metrô algumas situações constrangedoras. Uma vez acompanhei uma aula de culinária à distância:
– Então, agora, junta os ovos batidos, sem a clara, e bate tudo até engrossar…
Em outra ocasião, vi e ouvi um homem que se justificava com o chefe pela falta, alegando que estava acamado, apesar de estar ali, ao meu lado, de roupa de praia, com cadeira e isopor.
Teve outra em que tive de ouvir a conversa de uma mulher que passava o boletim médico de uma senhora, da casa de quem ela acabara de sair, para filha ou contratante, sei lá:
– Vomitou uma vez só, mas não teve febre.
_ ……………
– Limpei, limpei, a senhora tinha que ver o estado. Só água!
_ ……………
– Não, só água, diarreia braba!
Eu sei que eu sou chato, sempre fui, mas o mundo à minha volta está me dando cada vez mais motivos para isso.


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