Luísa estava aflita. Ela havia acabado de perder a lotação para a sua cidade de origem e agora jazia no ponto de ônibus esperando, feito alma penada. O problema é que a próxima condução só viria dali a duas horas, com sorte. Pra que fui cismar de vir visitar a minha irmã aqui no Rio de Janeiro num domingo à tarde, meu Deus! Agora como faço pra voltar pra São Gonçalo assim com o dinheiro contado?, pensou, culpando-se pela própria insensatez.
A noite já caía mesquinha e indiferente, enquanto a pequena mulher tremia as pernas mínguas e inquietas com o frio recém-chegado de abril. Ela reparou como as ruas desertas da Presidente Vargas em nada lembravam a grande avenida brilhante que tilintava ao meio-dia com o metal fervente dos carros. De fato, o cenário era outro, como que transfigurado pelo vazio: o vento farfalhava na vegetação artificial plantada nas calçadas pela prefeitura, para disfarçar o desgosto do concreto. As folhas produziam um som que lembrava um lamento. Luísa sentiu a espinha gelar.
Debaixo dos viadutos, os enormes montes de lixo e cascalho, enrodilhados em botão, eram como pequenos cérebros apodrecidos e ela poderia jurar que vira arrastarem-se, entre eles, fantasmas há muito esquecidos.
De repente, a velha senhora notou algo se aproximando, a passos lentos. Apertou a bolsa de crochê. Dentro, só havia os trocados do ônibus, a bíblia, e o fiel rolo de lã com a agulha de crochê pendurada, sua companheira e fonte de sustento. Paralisada pelo pavor e sem conseguir se virar, percebeu a silhueta do que adivinhou ser um enorme cachorro que, depois de uma análise cuidadosa, disparou em sua direção.
Em pânico, Luísa saiu de seu torpor e correu pela avenida aos solavancos. Primeiro, perdeu a sandália do pé esquerdo, tropeçando no meio-fio. Depois, com a energia dos desesperados, cruzou a Leopoldina, caindo novamente perto da passarela. Dessa vez, perdeu os óculos de grau e ralou o cotovelo direito, mas não tinha tempo de sentir dor. Levantou-se como pôde e continuou a travessia insana.
Repetia para si mesma, atônita: Ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte, não temerei mal algum. Mas não conseguia olhar para trás. Sentia o bafo do animal no seu cangote. Quando já atingia o elevado do gasômetro que dá acesso à prefeitura, Luísa caiu pela terceira vez, tombando de joelhos para a frente. O rosto foi de encontro ao asfalto, puxado pela gravidade. Sem forças, pensou em desistir.
Depois de tudo, iria morrer ali? Sumir e virar mais um fantasma espreitando entre os cascalhos da grande avenida que engole tudo, principalmente a gente que é pobre. Nesse momento, a fera finalmente a alcançou. Montou com violência em suas costas, cravando as patas dianteiras em seus ombros. A baba escorria pela boca da criatura dentada, prestes a morder a sua nuca exposta. Quando já fechava os olhos em exaustão, Luísa decidiu se agarrar à vida.
Com um amor gorduroso que jamais teve antes como dona de casa, ela se revoltou. Num último ato de coragem, a senhora teve um estalo: pegou a agulha de crochê, caída à altura de sua orelha, e, virando-se num átimo, cravou-a no peito do cão infernal.
O monstro soltou um berro medonho e caiu pesado sobre o chão, soltando o seu corpo de trapo. Mas, tamanha foi a surpresa de Luísa, segundos antes de desmaiar: ao virar para o lado, olhou a besta nos olhos e ela parecia muito, mas muito, uma criança.


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