Dizem que a madrugada do dia 24 de junho é a mais gélida do ano. Bem, esta não foi, embora uma frente fria tenha chegado, trazendo chuva e diminuindo a temperatura. Esse friozinho do início do inverno nos lembra festa junina e, hoje em especial, por ser São João.
Nasci na segunda metade do século XX. Cresci e vivo num ambiente urbano, de um bairro da Zona Norte do Rio, próximo ao Centro. Assim, minhas experiências com festas juninas se limitam às quermesses de igreja ou de escolas. Sempre houve quadrilhas e comidas típicas, porém, o conceito se distanciava das tradições originais, estando mais voltado a angariar fundos para as instituições promotoras e seus projetos.
Como posso, então, saber a diferença entre passado e presente, se este foi o único modelo que conheci: pátios cheios de barraquinhas, com pescaria, sorte, arremesso a latas, boca do palhaço, comidas e guloseimas, danças ensaiadas e com hora marcada? Porque ouvi histórias de minha mãe sobre as comemorações de seu tempo de menina e jovem.
Ela também nasceu e cresceu no Rio de Janeiro. Contudo, sua infância e adolescência foram num bairro do subúrbio, ainda bastante rural na época, durante a primeira metade do século passado. E isso fez toda a diferença.
O terreiro comum, onde ficavam as casas alugadas pela proprietária da residência principal, era enfeitado com bandeirinhas e uma fogueira. Uma longa mesa exibia pratos da época: canjica, pamonha, paçoca, bolo de fubá, cocada. Milho e batata doce eram assados na brasa. Também se servia quentão para os adultos. Um sanfoneiro e um violeiro tocavam forrós e canções juninas, ao som dos quais as pessoas dançavam, espontaneamente, sem ensaio ou coreografia. Nomes de pretendentes em potencial eram escritos em papéis, dobrados e depositados numa bacia com água, sob o luar. As moças participantes aguardavam o dia seguinte para ver quais se abririam, revelando um possível amor. Outra sorte era quebrar um ovo na água e ver que imagem formaria de manhã, indicando o futuro do jogador. Que medo de aparecer uma sepultura! Crianças participavam de jogos e brincadeiras, como a corrida de saco e corrida dos três pés. Rapazes se aventuravam subindo no pau de sebo ou tentando pular a fogueira, tanto pelo prêmio quanto por exibir sua coragem e habilidade. Quando a noite caía, fogos e balões coloriam o céu.
Os participantes dos folguedos eram familiares e amigos, todos conhecidos e contagiados por uma alegria simples e autêntica. Sem pensar a respeito, reviviam os festejos de tradição portuguesa e da roça, mantendo vivos costumes, enquanto desfrutavam o prazer de brincar em comunidade.
Atualmente, essas práticas estão mudadas, misturadas ao aspecto comercial ou beneficente. Modernizadas, incluem outros gêneros musicais e concursos de quadrilhas, com roupas vistosas e coreografias complexas. Balões, devido ao risco que representam, não podem mais ser apreciados e os fogos são um show pirotécnico complementar em alguns eventos.
Sem dúvida, não se pode deter o ritmo do tempo. Com seu avanço, coisas se modificam e novas tradições são criadas. Como, no entanto, somos moldados por nossa história, sempre vale resgatar memórias e imaginar, caso não o tenhamos presenciado, os usos de antes. Sendo assim, que venham as festas: “São João, são João, acende a fogueira do meu coração”!
ALERTA (Não mais repetirei esta mensagem, pois é a mesma em todas as crônicas. Caso haja mudanças, darei o aviso correspondente.): Texto SEM a participação especial de IA.


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