Desde o nascimento, eu já estava condenada. Meus fios tão vermelhos como o fogo, que consumia meus pés, eram a prova. Os padres sempre encontravam um motivo para me repreender, mesmo que infundado.
— Isso foi culpa daquela parteira, Katherine. Bem que me avisaram… — Sua mãe resmungava quando escutava algum comentário sobre a filha.
Os moradores do vilarejo afirmavam que a parteira tinha atentado contra Deus. Os testemunhos sobre os atos de Emma variavam, mas todos concordavam em um único aspecto. Ela era uma pecadora por não ser submissa ao marido. Aparentemente, após o casamento, o lenhador exigiu que sua esposa parasse de ajudar as grávidas.
— Agora, de acordo com as leis divinas, você me pertence. Por isso, pare de interferir nos planos de Deus para essas crianças. — O homem berrava diariamente.
Apesar das ordens, Emma continuou sua tarefa com as mulheres necessitadas.
— Esse meu dom foi um presente de Deus. Ignorar a sua existência seria descumprir minha missão na terra. — A mulher respondia ao ser questionada.
Porém, ao sentir o cheiro da minha própria carne queimando, soube que a culpa não era sua. Muito menos de Eleanor.
Minha amada Eleanor…
Eu lembro, como se fosse hoje, da primeira vez em que nos encontramos. No primeiro momento, senti raiva de Eleanor por ter me exposto, mas não era sua intenção. Quando completei doze anos, minha mãe criou uma receita à base de casca de nozes para escurecer o cabelo. O único problema era que a tintura saia facilmente.
O acidente aconteceu, quando tinha dezesseis, e estava a caminho da igreja para entregar uma encomenda. O padre cuidava das crianças órfãs e elas precisavam de roupas novas conforme cresciam. Por isso, contratou minha mãe como costureira e eu era sua ajudante.
Naquele dia, a entrega atrasou porque uma das lavadeiras tropeçou, enquanto carregava um balde cheio de água. Infelizmente, ou não, eu fui atingida.
— Ah, me desculpa! Você está bem? Minha cabeça estava em outro lugar. — Disparou a moça assustada, enquanto oferecia a ajuda para me levantar.
Quase aceitei a mão e a perdoei, mas vi o meu reflexo na poça. Toda a tintura havia desbotado e os fios ruivos reluziam.
— Você acha que bem e encharcada são a mesma coisa? Vê se presta atenção por onde anda! — Esbravejei enquanto ficava de pé sozinha.
Por sorte, a bolsa de couro protegeu as roupas. Pude entregá-las, mas não sem correr para casa. Precisava ocultar o meu cabelo, então vesti a primeira capa que encontrei, antes de voltar à igreja.
Aquela não seria a última vez que veria Eleanor. Algum tempo depois, por causa de um vestido rasgado, nossos caminhos se cruzaram novamente. Não sabia que aquela roupa pertencia a ela, nem a lavadeira sabia que seria eu quem a costuraria.
— Você é a Eleanor? – Perguntei acuada ao lembrar o nome da encomenda.
— Sim, o vestido é meu. – Respondeu a moça de cabelo preso.
Por alguns segundos, um silêncio pairou entre nós. Após devolver a vestimenta, quase fui embora sem trocar mais nenhuma palavra. Porém, Eleanor tomou a iniciativa.
— Bom… Sobre aquele acidente, agora entendo a sua reação. Soube que não é fácil ter um cabelo dessa cor. — Disse a moça com um sorriso acolhedor.
Da última vez, meu comportamento não foi dos melhores, então não esperava algo assim. Não soube como reagir.
— Cá entre nós, não vejo sentido nisso. A cor original do seu cabelo é tão bela como uma rosa. Não sei por que a igreja se incomoda tanto. — Continuou ela.
Eleanor era corajosa ou louca. A linha que separava esses estados era muito tênue. Talvez, a moça fosse um pouquinho dos dois. Eu sabia que contrariar os dizeres dos padres ou insultá-los era perigoso. Apesar de ainda não imaginar o quanto.
Conforme o tempo passava, percebi que havia algo de errado com as roupas da lavadeira.
— Não é possível que alguém rasgue tantas peças assim! — Exclamei ao vê-la pela quarta vez em um mesmo mês.
— Acho que elas gostam de estar nas mãos de uma costureira habilidosa. — A moça respondeu com as bochechas tão rubras quanto meu cabelo natural.
Inicialmente, acreditava que Eleanor corava devido ao frio. Entretanto, a vergonha era a verdadeira culpada. A própria lavadeira estragava suas vestimentas como desculpa para me encontrar.
— Você sabe que não precisa de uma roupa necessitando de reparos para me encontrar, né? — Eu disse enquanto ela ajeitava seu lenço esfarrapado, o único adereço que nunca abandonava.
Aos poucos começamos a interagir e descobrir interesses em comum. Nós duas amávamos a leitura e a natureza.
Apesar da nossa origem humilde ou do nosso gênero, nós duas sempre tivemos curiosidade e determinação. Assim, aprendemos a escrever e ler espiando as aulas, destinadas aos aprendizes da igreja. Era mal visto mulheres pobres fazerem isso? Sim, mas elas não eram as únicas que quebravam as regras. Os homens de Deus deveriam ser castos, mas havia inúmeras histórias sobre seus filhos bastardos.
— Kathy, se você ama tanto a natureza quanto eu, porque continua escondendo a cor natural do seu cabelo? — Eleanor questionou certo dia.
Naquele momento, eu contei sobre as ofensas que escutei durante toda a minha infância. As crianças me apelidaram de “Sangrenta” e não chegavam perto de mim. Os adultos afirmaram que se não obedecesse ou não rezasse todas as noites, seria uma solteirona.
— Sinceramente, não sei por que o casamento é tão valorizado. Não estou ansiosa para apanhar de um homem ou ter o tal órgão de que eles tanto se orgulham enfiado dentro de mim. — Revelei, enquanto ria na tentativa de aliviar a conversa.
Apesar dos riscos, no dia em que Eleanor completou dezessete anos, fiz uma surpresa. Pela primeira vez em meses, a moça vislumbrou os tons de vermelho e laranja ardente sob minha cabeça.
— E aí? O que achou? — Perguntei ao retirar minha capa e entregar um lenço.
Aquele era o meu presente. Não pude deixar que ela continuasse amarrando o cabelo com um pedaço de pano velho. Eu mesma comprei um pouco de tecido e o atingi de vermelho. Além disso, bordei uma rosa, sua flor favorita.
— Linda… Ops! Quis dizer lindo, o seu presente. — Respondeu a aniversariante atrapalhada.
Entretanto, a paz e a tranquilidade nunca duram…
Os meses passaram e a igreja se tornava cada vez mais rigorosa. Mulheres como a parteira desapareciam e ninguém questionava. Mais tarde, elas seriam vistas novamente na sua execução purificação.
— Filha, você precisa tomar cuidado… Não ande sozinha por aí com o cabelo desse jeito. — Minha mãe alertou diversas vezes.
Infelizmente (ou felizmente, depende do ponto de vista), eu não dei ouvidos à costureira. Eu e Eleanor continuamos com os nossos encontros na natureza como sempre até o fatídico dia do meu aniversário.
Quando fiz dezoito anos, a lavadeira me guiou até uma clareira desconhecida para mim. As diversas rosas plantadas eram a prova de que a outra já havia visitado o local.
— Gostou da surpresa? Essa é só a primeira parte. Feliz aniversário, Kathy. — A moça ao meu lado desejou.
— Elly, isso é… — Iniciei, mas fui interrompida por um beijo.
Fiquei paralisada. Eleanor havia me beijado. Apesar de não ter interesse em homens, nunca imaginei que aquilo fosse possível.
Após o choque inicial, retribuí. Eu estava errada, beijar não era nojento. Na verdade, era doce e intenso. Nem a ansiedade e medo do pecado eram capazes de estragar aquela união.
Uma pequena eternidade se passou antes do farfalhar dos arbustos. Alguém estava ali. Essa percepção fez com que nos separássemos imediatamente, só paramos de correr quando chegamos ao vilarejo. Eu torci para que tivesse sido um coelho. Não me permiti rezar, pois sabia que beijar uma igual era pecado.
— Talvez não tenham visto o nosso rosto. Mesmo assim, precisamos nos afastar um pouco até isso ser esquecido. — Eleanor sugeriu ofegante.
Assim, conversamos pela última vez. Em parte, minha amada estava certa. Realmente, o lenhador não me identificou pela face, foi pelo meu cabelo. Na delação, ele afirmou que só distinguiu duas figuras femininas pecando.
— O diabo escondeu uma delas… As aberrações fugiram, mas deixaram seus fios de cabelo para trás. Os castanhos podiam ser de qualquer uma, mas os flamejantes só podiam pertencer a uma pessoa, Katherine. — O homem expôs publicamente no dia da fogueira.
Não consegui segurar o riso. A dona dos fios castanhos estava ali, em meio à multidão. Quase todo o vilarejo vinha assistir às mortes na fogueira.
— Nossa! O cheiro tá me dando fome, lembra carne de vaca. — Uma criança comentou inocentemente, sem entender a situação.
Aqui de cima, enxergo Eleanor com lágrimas silenciosas e com tremores involuntários. Não posso deixar que ela se culpe pelo meu destino. Não posso partir sem uma despedida.
— Vocês podem me matar, mas nunca serão capazes de apagar o amor. Sinto pena de quem sofre para chegar ao paraíso depois da morte. Beijar minha amada, fez com que eu alcançasse o paraíso em vida. Não me arrependo de nada. Não foi nossa culpa… As mentiras e o ódio… São os únicos culpados… — Berro com minhas últimas forças enquanto o calor e a dor me consumiam.
°°°
Katherine nunca imaginou que seu discurso afetaria mais pessoas, além de Eleanor. Porém, aquela lavadeira sempre conseguia surpreendê-la. Assim que retornou para sua casa, ela escreveu as últimas palavras da ruiva junto com algumas lembranças preferidas. Esses registros foram protegidos pela mulher até o final de sua vida.
Não há muitas informações sobre seu paradeiro antes de ser encontrado durante uma escavação no século XXI. Infelizmente, os papéis estavam deteriorados e muitos escritos foram perdidos. A lembrança da clareira de rosas e o discurso final resistiram. Após os historiadores confirmarem a existência de Katherine nos registros da Inquisição, a história veio a público.
Assim, o amor de Eleanor e Katherine inspirou várias mulheres que amava outras mulheres. As rosas vermelhas viraram um símbolo da comunidade LGBTQIAP+. Apesar de toda dor, o ódio nunca venceria o amor.
Instagram do autor: @umautorautista


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