às vezes, eu sumo.
ninguém me vê
nem recebe notícias minhas.
só apareço na fila do banco,
na sala do escritório,
enfim, em lugares em que viver é obrigatório.
não tem como me mandarem cartas.
as poucas pessoas que sabiam onde eu morava
não estão mais aqui.
e eu já morei em tantas versões de mim
que ficaria difícil dizer qual delas atende a porta.
eu não publico meus cafés
ou os docinhos que compro na esquina do centro
e que às vezes salvam meus dias
como pequenos milagres de vitrine e açúcar.
tem gente que quer saber por onde ando.
nem eu sei por onde andei.
acho que fui passando,
de cidade em cidade,
de ideia em ideia,
de estação em estação
trocando de roupa,
porque o clima muda.
às vezes penso em postar
foto da minha mesa milimetricamente organizada,
do meu almoço balanceado
ou do pôr do sol alaranjado
que deixa o céu sei lá o quê,
uma cor que só existe quando está indo embora.
mas pra quê?
tenho a sensação de que algumas coisas acontecem melhor sem plateia
o gosto do café na pressa,
os docinhos da esquina do centro,
o silêncio (des)confortável de uma tarde de domingo.
mas eu ainda me lembro com afeto
do teto,
dos amigos,
dos amores,
da família, de sangue e de alma,
das cadeiras arrastadas na cozinha,
das risadas atravessando a madrugada,
dos nomes que um dia foram casa
de morar na palavra de alguém.
carrego tudo isso comigo,
guardando bilhetes no bolso
e esquecendo de jogar fora
não acho a vida sem graça.
acho que a vida é uma graça.
dessas que tropeçam, derramam café,
perdem a hora,
inventam caminhos mais longos
só pra ver o movimento.
até acho que amo viver.
e um dia, eu apareço de novo.
num sábado desses gostoso
pra fazer vocês rirem outra vez.
acho que
às vezes sumir
é estar por aí,
ocupado demais vivendo
pra lembrar de aparecer,
ou eu só tenha medo mesmo
do (des)amor de vocês.
enfim, é isso.
tchau e desculpa o sumiço.


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