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O infiltrado

Eu havia acabado de chegar ao Rio de Janeiro cheio de sonhos e curiosidades. Um desses desejos era conhecer o Maracanã – o Templo do futebol, a casa do Flamengo, podia-se dizer assim, embora naquela época sua sede fosse na Gávea.

Ainda menino, tinha visto o Mengão conquistar a sua primeira Copa Libertadores, em 81, e logo em seguida o Mundial de Clubes no Japão, quando derrotou o todo-poderoso Liverpool por 3 x 0, com dois gols de Nunes e um de Adílio, com Zico comandando o baile. Tinha “visto”, mas pelo rádio, não pela TV. Não tínhamos essa maravilhosa invenção em nossa casa.

Eu tinha apenas 11 anos, mas sabia a escalação da equipe de cabeça. Vez ou outra assistia aos jogos do Flamengo pela TV dos vizinhos, ainda preto e branco, mas era uma alegria imensa ver o meu time ganhar.

Caro leitor, se você torcer por outro clube, não deixe de ler esta crônica por causa disso. No final, você vai me entender. Só os apaixonados pelo futebol fazem a doidice que fiz. Talvez você fizesse também; ou já tenha feito.

Pois bem, voltando ao meu sonho. Eu morava em São Gonçalo e queria ir a qualquer custo ver o meu time jogar no Maraca. Então surgiu a oportunidade. Teria Flamengo x Vasco pelo Brasileirão. No primeiro confronto daquele campeonato entre as duas equipes, o Gigante da Colina havia vencido por 4 x 2. Agora viria a segunda partida, tão esperada quanto a primeira.

Meu cunhado, que era vascaíno, disse que iria ao Maracanã. Pedi que me levasse.

– Tá maluco! Não vou te jogar no meio dos urubus sozinho, sem conhecer nada aqui. Tu vai se perder de mim e aí, o que vou fazer?

– Me perco não. A gente marca na estátua do Bellini.

– É gente de mais lá. Não dá certo.

Eu já havia me informado de tudo. Era ali, em frente à estátua, que torcedores costumavam se encontrar antes e depois das partidas. Minha irmã foi contra. De jeito nenhum! – disse. E o pior: era à noite. Se eu me perdesse, como voltaria tarde da noite para São Gonçalo? Impossível! Não deixaria eu ir de jeito nenhum! Quase choro. Meu cunhado ficou com pena de mim e falou:

– Só tem um jeito. Tu fica na torcida do Vasco comigo.

– Fico – gritei. – Pra ver o Flamengo jogar no Maracanã, faço qualquer coisa, até ficar na torcida do Vasco.

Nenhum torcedor flamenguista, por mais doido que estivesse, ficaria em meio à torcida vascaína numa partida daquela. Minha irmã foi contra de novo. Meu cunhado me defendeu. Se era meu sonho, me levaria, mas eu teria que seguir as seguintes instruções:

– Olha, se por acaso o maldito Urubu fizer um gol – que não vai fazer –, tu não pode nem se mexer. Se descobrirem que tu é flamenguista, te matam ali mesmo e eu não posso fazer nada. Então, quando a gente se levantar, tu se levanta também; se a gente vibrar, vibra também; quando a gente xingar, xinga também. Sabe cantar o hino do Vasco? Não, né. Então, finge que sabe.

Concordei. Comprei o ingresso. O jogo foi numa quarta-feira à noite. Quando entramos no Maracanã, devia ter cinco vezes mais gente no estádio do que em minha pacata cidade cearense. Era um mundaréu de gente. As duas torcidas cantando, vibrando, xingando uma a outra. Bandeirões, sinalizadores, faixas… Para mim, era uma coisa de outro mundo, jamais vista pessoalmente. Os dois maiores rivais cariocas frente a frente. O Clássico dos Milhões! E eu ali, ao lado do Ricardo – o meu cunhado – na torcida do Vasco, feliz e nervoso ao mesmo tempo, observando cada movimento da torcida. Ele era um olho no campo e um olho em mim. Acho que estava mais nervoso do que eu.

O jogo começou. O Vasco chutou uma bola na trave. A arquibancada inteira se levantou. E eu também. Já no final do primeiro tempo, Júnior cobrou um escanteio, a bola desviou em Luiz Carlos Winck, do Vasco, e… gooooooool. A torcida toda sentou, triste, reclamando; e eu também. Mas por dentro morrendo de alegria, e de medo. Ricardo me olhou. Eu lá, um verdadeiro ator, com cara de triste.

Teve uma chuva de cartões amarelos. Jogador do Vasco expulso. A torcida vascaína xingando o juiz; e eu, pela primeira vez, xinguei o juiz também. Fazer o quê? E o Flamengo perdendo um gol atrás do outro, foi um senta e levanta sem fim. Bola na trave do Vasco; me levantei sozinho. Ricardo me puxou, como quem diz “Tá doido?”

Foi uma partida cheia de adrenalina e confusão. Quase no final do segundo tempo, o maestro Júnior deixou Nélio sozinho para selar o placar: 2 x 0. A torcida cruz-maltina não se entregou. Vibrava, cantava, xingava, rezava; e eu fingindo tudo – um verdadeiro ator de Hollywood.

O juiz apitou o fim da partida. Graças a Deus! O meu peito estava quase explodindo de tanta alegria. Afinal, conheci o Maraca e meu time venceu seu maior rival. Tinha alegria maior? Só não sei como suportei tudo aquilo calado. Loucuras de torcedor!


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Criada em 2020 pelo professor e poeta Renato Cardoso, a Revista Entre Poetas & Poesias é um periódico digital dedicado à valorização da literatura e da arte em suas múltiplas expressões. Mais que uma revista, é um espaço de conexão entre leitores e autores, entre a sensibilidade poética e a reflexão cotidiana.

Registrada sob o ISSN 2764-2402, a revista é totalmente eletrônica e acessível, com publicações regulares que abrangem poesia escrita e falada, crônicas, ensaios, entrevistas, ilustrações e outras formas de expressão artística. Seu objetivo é tornar a arte acessível, difundindo-a por todo o Brasil e além de suas fronteiras.

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