Num passado remoto, um idoso, com perda de memória, resolvera visitar um presídio, achando que fosse a sua casa.
Naquele endereço ele fora muito feliz, jogara bola na rua, brincara com os amigos e até conhecera a sua primeira namorada, que depois se tornara a sua esposa. Naquela época, começava-se a namorar com certa idade, já pensando no casamento. E, segundo uma expressão popular “quem casa quer casa”, os noivos foram morar em outra casa, outro endereço, só que na cabeça e no coração do Seu Roberto ficaram as boas lembranças de sua casa da infância, tanto que ele falara para si mesmo: “Um dia voltarei a morar nesta casa, nem que seja preciso comprá-la, pois quero que meus filhos e netos, também passem momentos alegres aqui”.
Quando Seu Roberto já contava com uns 70 anos, sua memória começou a falhar, tendo atitudes de esquecimento e até alguns surtos. Teve um dia que antes de sair falou assim para a esposa: “Oh, mãe, mãe! Vou brincar com meus amiguinhos!” – Ela ficou sem saber o que dizer. Num outro dia ele tinha ido ao mercado sozinho e lá: “Olha isso!” – Falou gritando. Chegou um funcionário perto, perguntando o que houve e ele: “Sai daqui! Quero a minha mãe! Mãeeee!!!” Chamaram o SAMU, levaram-no para o hospital, onde foi diagnosticado com Mal de Alzheimer. Depois desse dia, as crises e surtos foram aumentando, porém teve épocas que parecia estar muito bem, como se não tivesse nada de errado, o que não foi bem assim…
Com a perda da memória avançando, prejudicando a sua convivência com a família e sentindo que não demoraria a perdê-la por completo, ele decidira que voltaria à casa de sua juventude, porém não sabia o que iria encontrar e, ainda, que viraria notícia de jornal.
Seu Roberto levantara bem cedo, tomara café e saíra. Por ser idoso e não poder dirigir mais, chamara um táxi e dissera o endereço do destino. Chegando lá, pagou o motorista, e foi em direção ao prédio, não muito grande, mas diferente de ser uma casa residencial. O motorista achara bem estranho aquela atitude, pois, naquele dia não era dia de visitas no presídio e aquele senhor sozinho entrando lá… Ficara pensando no que será que aquele senhor iria fazer e resolvera ficar mais uns minutos. Dali a pouco ouvira-se uma gritaria vindo do presídio, “Eu quero falar com o proprietário! Esta casa foi minha! Morei aqui quando criança! Quero comprá-la! Larguem-me seus loucos! Vocês se apossaram do que não é de vocês! Vou chamar a polícia, vocês irão para a cadeia! Esta casa é minha, voltará a ser minha! Saiam da minha frente, ladrões de uma figa!” – Assim, começara a chegar várias viaturas da polícia e mais o jornal local.
No dia seguinte lera-se a seguinte matéria do jornal:
“Um idoso, com perda de memória, visita o presídio da cidade, e causa uma grande confusão. Tiveram que chamar a polícia, que ironia, para interditá-lo. O idoso chegou no presídio dizendo que ali tinha sido a sua casa e que gostaria de conversar com o proprietário atual, para fazer uma proposta de compra”.
O agente penitenciário que ali se encontrava começou a rir e debochar da cara dele. O homem ficou muito irritado com a falta de respeito do agente e queria tirar satisfação, indo para cima, indagando, até gritando… Nada, nem ninguém o acalmava, fazendo com que os presidiários também gritassem muito, ao mesmo tempo em que davam risadas, pois o senhor invasor, corria por tudo, enlouquecido… Então, a polícia chamara a família do idoso, que esclarecera que o mesmo estava sofrendo com a perda da memória, mais especificamente, Mal de Alzheimer, e que ali tinha sido a sua casa na infância.
Nada mais afetava esse senhor que suas próprias lembranças… Às vezes infantis, que logo chegavam ao que aconteceu a um minuto atrás… Seu Roberto continuou indo ao presídio visitar seus “amigos da infância” – os presos e funcionários – levava lanches e alguns brinquedos para dividir com eles… Queria aproveitar todos os instantes possíveis que o restante de sua vida poderia lhe proporcionar… Logo, ficou famoso em sua cidade, mas como mal lembrava das coisas, essa fama foi passando despercebida a ele e, no final, o presídio inaugurou uma placa “Aqui nasceu, viveu um tempo, mudou-se, voltou a viver de forma ilusória até os fins de seus dias, Sr. Roberto, o idoso amigo do presídio”.
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