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Promessa de vida

Acho que aconteceu na semana passada. Confesso que o mês de outubro passou de forma meio caótica, por vezes, angustiante. Desse modo, alguns eventos se misturaram e perderam referência na linha temporal. Daí, minha imprecisão. Enfim, ao acordar certa manhã, vi que meu marido já tinha ido para a universidade. Levantei, arrumei a cama e, antes de tomar café para sair, liguei o celular.

Sim, eu o desligo durante a noite, a fim de ter certa paz. Um exercício de desintoxicação. Smartfones servem para tudo, quase nunca para telefonar. A internet é útil, oferece múltiplas oportunidades, todavia, também esgota nosso tempo. Quando nos damos conta, se bobearmos, o dia se foi e ficamos presos num looping de páginas e postagens.

Entre as diversas mensagens encontradas, havia um “bom dia” do meu marido, com uma foto e uma pergunta: “É um botão?”. Ele se referia ao pé de manacá que plantamos no jardim do prédio.

Sempre me encantaram os manacás. Suas folhagens são, talvez, um pouco desengonçadas. Eles, porém, dão flores lilases (minha cor preferida) que, ao envelhecerem, se tornam brancas e passam a exalar perfume. O interessante é coexistirem, num mesmo arbusto, as duas cores. Antigamente, eu pensava tratar-se de algum hibridismo, ou de duas plantas postas juntas. Depois, descobri o mecanismo e gostei ainda mais.

Faz uns anos, ganhei uma muda de manacá-de-cheiro (ou manacá-de-jardim) e decidi convertê-la em bonsai. Apesar de o intento não ter sido muito bem sucedido, ela sobreviveu. Cheguei à conclusão de que recebia pouco sol e estava sufocada no pequeno vaso. Então, decidi transplantá-la para o tal jardim. Isso ocorreu há mais de dois anos.

A planta levou um bom tempo para se aclimatar ao novo espaço, bem maior. Foi atacada por besouros. Conseguimos salvá-la com adubo e cuidado. Cresceu, a partir daí, forte e viçosa. No entanto, nenhuma flor aparecia. Embora um tanto decepcionada, eu tinha a esperança de vê-la florescer no próximo ano. Assim, receber aquela foto, não com um, mas com três botões, me encheu de alegria.

A natureza, com frequência, sofre limitações, ataques e é obrigada a existir sob condições adversas. Consegue, porém, vias alternativas e as segue no seu ritmo próprio. A paciência, portanto, se torna condição necessária para a superação e resultados. Após o trato devido, meu manacá reagiu e, agora, exibe seus primeiros botões em anos de existência. Seguem fechados. São, contudo, promessa de flor.

Foi uma grata surpresa e veio antes do esperado. Ainda preciso aguardar, claro. Mesmo assim, a planta me ensina: no tempo certo, com as ações adequadas, esperança pode virar realidade.


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Criada em 2020 pelo professor e poeta Renato Cardoso, a Revista Entre Poetas & Poesias é um periódico digital dedicado à valorização da literatura e da arte em suas múltiplas expressões. Mais que uma revista, é um espaço de conexão entre leitores e autores, entre a sensibilidade poética e a reflexão cotidiana.

Registrada sob o ISSN 2764-2402, a revista é totalmente eletrônica e acessível, com publicações regulares que abrangem poesia escrita e falada, crônicas, ensaios, entrevistas, ilustrações e outras formas de expressão artística. Seu objetivo é tornar a arte acessível, difundindo-a por todo o Brasil e além de suas fronteiras.

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