Sempre curti chapéus. Na adolescência e juventude, tive alguns: boinas, bonés, panamá, de feltro ao estilo anos 1940. Confesso que, apesar do gosto, não os usava com frequência. Eram pouco comuns no meu ambiente e eu tinha vergonha de chamar a atenção.
Nos últimos tempos, porém, eles se tornaram um acessório de saúde, considerando as altas taxas de raios UV e o mal que podem causar. Adotei, portanto, o hábito de levar sempre à cabeça um de pano, mais fresco e adequado ao nosso clima, “respirável”. Escolhi, para o dia a dia, um de cor bege em tecido de algodão e outro, de fazenda sintética, que seca mais rápido, para ir à natação. Admito não serem os modelos mais elegantes desse mundo, mas têm leveza, oferecem conforto e cumprem seu papel.
Dia desses, eu caminhava por uma rua movimentada do bairro. De repente, uma lufada forte de vento arrancou meu chapéu da cabeça. Pus-me a persegui-lo, sem grande sucesso, pois estava sempre um tanto à minha frente, fora do alcance dos meus dedos. Começava a dá-lo por perdido, quando um pé interrompeu seu avanço. Acelerei, me curvei, agarrei-o e, só então, olhei para cima.
Não consigo recordar detalhes do homem que cortou a rota de fuga do adereço. Lembro, vagamente, que era uma pessoa comum, simples e carregada de vários objetos, as mãos ocupadas. Todavia, um detalhe ficou gravado na minha memória: ele sorria. Retribui o sorriso, agradeci e ambos seguimos nossos caminhos.
Parece uma coisa banal, um acontecimento sem nenhuma importância e, talvez, com alguma comicidade. Deve ser engraçado ver uma mulher de certa idade acelerando o passo atrás de seu chapéu que rola pela calçada levado pelo vento. E, claro, o chapéu de pano, manchado da sujeira do chão, teria como destino, na volta à casa, a máquina de lavar. Foi, contudo, um momento de gentileza, de contato humano, de solidariedade com o problema do outro. Em tempos tão impessoais e individualistas, isso traz conforto e faz toda a diferença.


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