Por Elias Antunes
Antes de ganhar o Prêmio Nobel de Literatura de 2023, Jon Fosse já era um escritor extremamente reconhecido, não somente por seus romances desconcertantes, mas principalmente por suas peças de teatro aclamadas no mundo inteiro.
Com o romance “É a Ales”, Jon Fosse consegue destorcer uma história que se passa, quase que totalmente, nos pensamentos e na memória da personagem Signe, a mulher dedicada de Asle, o qual desparecera em seu barco há 23 anos.
Logo nas primeiras páginas Signe recorda de Asle olhando para fora, para a escuridão, lembrando a velha frase de que o abismo olha de volta para quem o olha:
“e ele se vira em direção a ela e ela vê que a escuridão também está nos olhos dele”
(FOSSE, 2023, p.13)
Seu longo desparecimento, são mais de 20 anos que ele saiu em seu barco no fiorde e nunca mais voltou, trouxe uma lacuna impreenchível que a personagem vai tentando resgatar e entender o que de fato aconteceu.
A dor que Signe carrega é a dor da incerteza, do que de fato aconteceu e ninguém sabe, o desaparecimento pode ser mais terrível de que a morte, cavando fundo na sua mente e no seu coração.
Outro ponto alto da narrativa é a pontuação. Fosse utiliza-se de uma pontuação destorcida, próxima à poesia, muito mais ideal do que dentro do padrão linguístico.
Nos diálogos há mais uma adivinhação do que confabulação. Certo que a escuridão já chamava Asle para seu desaparecimento.
No decorrer da história aparecem alguns fantasmas do passado, fazendo da realidade imaginada por Signe presenças marcantes.
As forças da natureza são preponderantes: o vento, a chuva, o mar, o barulho da natureza e a escuridão.
Mestre da linguagem, do místico, a história se parece com um sonho, um pesadelo que nunca acaba, pois mergulha na ausência e nos sentimentos que restaram.
Fonte da imagem: Foto do autor.


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