Grajaú, um dos bairros mais agradáveis do Rio de Janeiro. A maioria das ruas é arborizada e os prédios têm no máximo quatro andares; por conseguinte, o sol ilumina toda a rua, mesmo no inverno.
Uma das moradoras desse bairro é a D. Marlene, uma senhora que ficou viúva muito jovem, precisamente aos 32 anos, e criou sozinha suas duas filhas. Ambas casadas e moram nas proximidades. Trinta anos depois, D. Marlene alimenta a esperança de viver um novo amor.
Foi num bate-papo pela internet que descobriu um grande amigo da adolescência, o Oswaldo, 60 anos, também viúvo. Ele a convidou para conhecer sua cidade no Rio Grande do Sul, mas D. Marlene hesitou em fazer a tal viagem por causa de sua gata, que teve seis filhotinhos. Por isso, ele marcou de visitá-la na sexta-feira.
Diante de tamanha alegria, D. Marlene mudou de lugar os móveis da casa, comprou cortinas novas e encomendou um jantar especial. Comprou vinho chileno e decorou a mesa com flores vermelhas do antúrio, que combinavam com os guardanapos também vermelhos.
A casa era espaçosa; um corredor dividia os três quartos, um deles era exclusivo do netinho. Cheio de brinquedos ao lado do pequeno berço azul. A área de serviço era repleta de plantas. Muitas samambaias de espécies raras penduradas e a casa do felino do lado oposto da lixeira de inox. Ela sempre foi muito organizada, sabia de cor onde permanecia cada objeto da casa. Olhou para todas as plantas e falou que iria para o salão de beleza.
Ao final da tarde, ela aparentava ser dez anos mais nova! Vestia um conjunto de saia e blazer na cor salmão, que contrastava com a blusa grená de renda sobre o colo ligeiramente bronzeado. Seus cabelos ondulados ficaram lindos no corte Chanel. Caminhou desfilando até o espelho do corredor, deu uma rodadinha e sorriu para si mesma. O telefone tocou; muito ansiosa, atendeu depressa. Era engano. Sua ansiedade aumentou. Olhou para o grande relógio de parede e certificou-se do atraso. Andava de um lado para o outro, preocupada. Meia hora depois, seu celular chamou; era o Oswaldo avisando que o voo foi adiado para o dia seguinte por causa do mau tempo.
Mais aliviada, D. Marlene resolveu experimentar o vinho. Pegou uma taça e foi para o seu quarto, cuja janela ficava entreaberta com frequência. Ao som do bolero D. Marlene adormeceu. Ela sofria de sonambulismo e devido a expectativa que gerou a ansiedade ela levantou-se duas horas depois. Quando chegou à cozinha ouviu um barulho metálico na área. Foi para o local normalmente, parecia mesmo que estava acordada. E o assaltante tentou se esconder atrás das plantas, mas não deu tempo. Ela o indagou:
– Por que não me chamou? Preparei um lindo jantar para você, venha!
– Não, obrigada, senhora, não estou com fome…- gaguejou
– Ora, que isso?! Não se faça de tímido! Após tantos anos, acha que não te conheço?
– Não, não quero! Não vou demorar…
– O quê? Após tantas horas de viagem?!
– Senhora, eu não… não sou quem
– Não aceito recusas! Venha, sente-se, vou pegar o pudim.
D. Marlene arrumou a mesa e dois sentados à distância, pareciam grandes amigos.
Oswaldo chegou, olhou a cena pela porta de vidro; sua querida Marlene ria a comer a sobremesa com um jovem rapaz. Desolado, escreveu um bilhete afirmando que ela nunca mais o procurasse e foi embora.
O assaltante ficou na casa e dormiu no chão, no quarto do bebê, ao lado dos brinquedos.
[ Crônica extraída do livro O Primeiro Prazer]
Ivone Rosa
@profaivonerosa
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