Acabo de concluir O Clube do crime das quintas-feiras (The Thursday Murder Club), de Richard Osman, editado pela Intrínseca (2021). Até recentemente, não conhecia o autor, um britânico de cinquenta e cinco anos, produtor, apresentador de tevê e escritor. Este foi seu primeiro livro de ficção, publicado em 2020. De lá para cá, escreveu outros, do mesmo gênero policial. Em sua bibliografia, alguns títulos se dedicaram a novas aventuras dos protagonistas do romance de estreia.
Cheguei à obra após ver o filme norte-americano homônimo (2025), baseado na versão literária. Achei a história tão envolvente, com um elenco de peso encabeçado por Helen Mirren, Pierce Brosnan, Celia Imrie e Ben Kingsley, que, ao descobrir o livro, decidi comprá-lo para presentear minha tia.
O enredo se desenvolve a partir de um grupo de quatro idosos, na casa dos oitenta. Vivem numa região tranquila da Inglaterra, em uma vila luxuosa para aposentados: Coopers Chase. Dispõem de várias atividades de lazer e ocupacionais no conjunto residencial, contudo, os amigos decidem fundar um clube para discutir e desvendar crimes antigos sem solução, para eles, tarefa mais interessante. À medida que os acontecimentos avançam, se veem diante de assassinatos e novos mistérios, para além dos casos contidos nas pastas que Elizabeth, uma das detetives amadoras, conserva consigo.
Como minha tia é leitora ávida, em especial desse gênero, e tem noventa e dois anos, achei que gostaria de uma história cujos protagonistas estão numa faixa etária próxima à sua. Quando ela terminou o livro, peguei-o emprestado.
Em quase quatrocentas páginas, Osman oferece ao leitor o típico de um romance policial: crime, mistério, suspeitos, pistas contraditórias e reviravoltas. Entrelaça, também, elementos do presente e do passado, assim como das vidas das diferentes pessoas que passam pela trama. Tudo isso, por meio de uma linguagem leve, fluída e clara, com toques de humor. Confesso, porém, ter lido a obra traduzida. Assim, o mérito do discurso cabe, igualmente, ao tradutor, Jaime Biaggio.
O autor utiliza dois níveis de narração. Há um narrador em terceira pessoa, com um conhecimento amplo do cenário e seus atores. Este, no entanto, não domina todos os detalhes (ou opta por não os revelar de modo completo), os quais vão sendo esclarecidos durante o desenrolar dos acontecimentos. Lança mão, ademais, da personagem Joyce, uma enfermeira aposentada e a mais nova integrante do Clube, apresentando-nos, por meio de seu diário, impressões pessoais e descrições das ocorrências. As duas narrações se alternam, cada qual em capítulos próprios.
Um aspecto marcante da narrativa é a potencial identificação entre leitor e protagonistas, personagens bem construídos, carismáticos e possuidores de personalidades peculiares. Por eu estar na terceira idade, os sentimentos, dúvidas, medos e desafios dos quatro e de seus vizinhos reverberaram em mim. Talvez um jovem, ao ler o texto, não vivenciasse impressão semelhante. Nesse sentido, a bagagem do indivíduo comprova ser um importante fator na reconstrução de sentidos durante a leitura, enriquecendo a profundidade possível na composição dos personagens e da história.
Filme e livro não são iguais, embora ambos tenham seu apelo. Percebe-se tanto a diferença de linguagem (cinematográfica e literária), quanto variações em algumas escolhas na condução da trama. Portanto, mesmo quem assistiu o longa metragem pode deliciar-se e surpreender com o romance. O contrário também vale.


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