Você é desse tipo de pessoa que volta em casa, depois de ter passado a chave na porta, para averiguar se deixou o ferro ligado, a janela aberta, se aguou as plantas, se pôs comida pro gato?
Eu sou assim, e essa coisa tem piorado com a idade, mas não nasceu com ela. Já voltei da rua por causa de um caderno, que, me certifiquei após ter voltado dois quarteirões, estava na mochila como eu o colocara na noite anterior. E eu tinha doze anos!
Uma vez falei pra uma amiga que tinha esquecido o celular em casa e que teria de voltar para buscá-lo. Ela, que estava em outro estado, me respondeu com toda calma, pra não me desesperar:
– E você está falando comigo como?
Vou de mal a pior.
Outro dia achei que tinha esquecido os documentos, para me dar conta, na primeira apalpada no bolso de trás que eles estavam lá, onde sempre os guardo ao sair. Já no portão do prédio, em outra ocasião, dei falta do fone sem fio, enquanto ouvia música com os aparelhos enfiados nos ouvidos. Pensei, uma vez, que tinha deixado o cartão do metrô na mesa da sala, logo depois de ter passado a catraca com ele.
Umas coisas que a gente faz no automático – pentear o cabelo, pegar os documentos, o fone, o celular, botar água pro gato, molhar as plantas, fechar as janelas para o caso de chover, apagar a luz, fechar a porta, chamar o elevador – não fixam na memória, e o resultado é que o corpo vai, mas a dúvida fica. E nos obriga a voltar.
Quando eu ainda dirigia, não foram poucas as ocasiões em que dei a partida, manobrei para sair da garagem, segui meu caminho, e só me lembrei do lugar para onde deveria ir quando já tinha rodado uns cinco minutos. Na direção contrária…
Talvez a vida é que esteja chata, de tanto que repete maquinalmente as mesmas cenas, como aqueles filmes americanos, cheios de chavões, que a gente já adivinha como vão acabar com três minutos de exibição.
A saída é esquecer alguma coisa, para ter que voltar, para fazer diferente, para subverter o roteiro e modificar pelo menos essas banalidades que a gente comete todos os dias, há muito tempo, regularmente, já que não é possível, que isso não é da nossa alçada, mudar os grandes acontecimentos que marcam as nossas vidas, para o bem ou para o mal.
Assim, seguimos, rotineiramente na trilha da vida, fazendo tudo o que roteirista pouco criativo do nosso destino ordena no script, até que o diretor, percebendo a mesmice, solta uma música alta ou provoca uma explosão no nosso filme para nos chamar de volta à cena.
Resta saber se, ao fim desta sessão, vou lembrar onde estacionei o carro.


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