Normalmente, não prestamos atenção em pequenos gestos ou palavras importantes para outra pessoa. Em algumas situações, são determinantes.
Em uma breve caminhada matinal, na mesma calçada, no sentido oposto, encontrei uma colega da universidade. Há muitos anos que não tínhamos contato, mas não foi difícil reconhecê-la.
A princípio, eu apenas sorri e acenei. Contudo, percebi que ela queria conversar. Como sou contrária à efemeridade das relações, parei para ouvi-la. Não foi uma conversa, e sim um desabafo. Havia tristeza em sua voz ao comentar sobre o desemprego, logo depois a separação conjugal. Muita angústia em dizer que ainda não tinha sido convocada em um concurso do município. Por última e pior notícia, perdera a mãe para a covid.
O que oferecer em uma situação assim?! Imediatamente dei um forte e demorado abraço. Silenciei diante do seu choro. A seguir, olhei em seus olhos, pedi que respirasse fundo e me escutasse:
– Não é conselho, é certeza! Tenho a certeza de que, na próxima vez que eu estiver com você, só ouvirei boas novas! Por experiência própria, tudo passa! Reconheço que esta fase parece impossível de terminar, mas acaba sim. Lembra-se das músicas em que cantávamos nas aulas de Literatura? “Não existiria som se não houvesse o silêncio, não haveria luz se não fosse a escuridão…”
Entre lágrimas, ela assentiu. Abracei-a novamente e fui embora. Faz três anos que isso ocorreu.
Sexta-feira passada, previsão de fortes ventos. Saindo do trabalho, correndo na volta para casa, eu a reencontrei. À distância, vi o grande sorriso em minha direção. Não precisei perguntar; ela contou sobre seu trabalho na escola pública, mudou de casa e está com um novo namorado.
“A vida é mesmo assim, dia e noite, não e sim” [Lulu Santos- Certas Coisas]
Ivone Rosa
@profaivonerosa
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