Na semana passada, escorreguei no box. Afortunadamente, não sofri qualquer dano grave, mas o evento me pôs a pensar. A culpa pelo acidente foi minha. Tive a infeliz ideia de escorrer o excesso de água do chão com um dos pés, sem me apoiar na parede. O outro falseou no piso ensaboado, resultando na queda.
Ora, tal prática me era corriqueira, porém, convenhamos, imprudente. Afinal, a combinação de película de água com sabão num piso frio tem o potencial de não dar boa coisa. Eu sei disso e todos o sabemos. Ainda assim, teimamos e, não raro, com consequências sérias.
Este foi apenas um exemplo de comportamento cotidiano permeado de leviandades. Quem nunca subiu numa escada com as mãos cheias de potes de vidro para guardar em armários altos, ou de livros para recolocar nas estantes? E as travessias fora da faixa, ou com o sinal fechado para o pedestre? A gente sempre acha que vai dar tempo. Nesse cenário, o problema adicional, hoje, é o desrespeito imperar: ônibus, motos e carros avançam os sinais sem dó nem piedade, quando não vêm na contramão, ou pelas calçadas. Logo, todo o cuidado é pouco.
Na juventude, vivemos cheios de adrenalina, acelerados. Falta-nos, em geral, paciência e acreditamos sermos os donos da razão. É uma época na qual correr riscos parece natural, não por achar que nos estamos expondo a perigos, mas por sentirmos uma certa invulnerabilidade quase heroica. Com o passar dos anos, vamos percebendo as vantagens da lentidão, de pensar antes de agir. Apesar disso, alguns antigos hábitos persistem.
Creio que, com a idade, não somos mais motivados pela ousadia. Contudo, sem percebermos, atuamos de determinadas formas, simplesmente, porque o fazíamos desde tempos imemoriais. Ou seja, automatizamos certos comportamentos, mesmo sem fazerem sentido ou oferecendo risco em potencial. Ignoramos, portanto, o bom senso adquirido com a experiência.
Isso me recorda a máxima de ser importante seguir aprendendo, criando sinapses para manter a lucidez e uma presença ativa no mundo. Uma das práticas positivas que tento exercer é parar e avaliar atitudes e pensamentos. Se foram recorrentes ao longo da minha vida, olho-os de modo crítico e vejo se ainda procedem. Caso conclua terem perdido o sentido para mim no presente, ou serem perigosos, procuro criar novas rotinas, os substituindo por algo melhor, ou, apenas, os abandonando.
O episódio do box me lembrou de quão necessário e permanente deve ser esse comportamento analítico. Ousadia, muitas vezes, é pura insensatez. Então, cabe rejeitá-la e entender: ponderação não é sinônimo de velhice e fim de energia vital, mas de sabedoria.


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