Duas pessoas, uma octogenária e um jovem, fizeram referência ao tempo, para demonstrarem sua aprovação ou não de algo que perceberam ao redor. A senhora disse entre dentes, como uma reprimenda, ao cruzar com uma jovem de biquíni, que caminhava, casual, em direção à praia:
– No meu tempo não existia isso!
O rapaz disse, feliz, ao reconhecer, na academia, uma canção do Skank:
– Essa é do meu tempo!
Interessante como o tempo pode ser usado como medida para aprovar ou desaprovar comportamentos ou canções.
Os mais velhos, não eu, vou logo avisando, afirmam categoricamente que no passado as coisas eram muito melhores. Meu pai já dizia isso pra mim e, antes, o meu avô dizia-lhe o mesmo. Essa desilusão com o presente me dá a sensação de que as coisas eram ótimas no princípio, logo depois de o verbo se fazer carne, e foram piorando, piorando, piorando, até chegarmos a essa porcaria de mundo que nos deixaram.
Como eu já disse, acho o oposto. A vida hoje é bem melhor do que era, porque só melhorou, pra mim, depois que me entendi como gente. Dos carros ao salário-mínimo, tudo é melhor hoje do que no tempo do meu pai, com exceção, talvez, da Seleção Brasileira de futebol: naquele tempo, havia Pelé e Garrincha.
Talvez ele pudesse se gabar, se Deus nos permitisse um inusitado encontro, da bossa-nova, do Cinema novo, do bonde, do velho Maracanã e do Baile do Elite. Mas eu contra-argumentaria ligando o ar condicionado e lhe mostrando os vinte canais de esportes que eu acesso na tv com um comando de voz.
Ele, claro, falaria da sensação de ver ao vivo, no teatro de revista, Grande Otelo e Oscarito, mas eu lhe falaria da imagem 4K da TV de 54 polegadas com som de cinema que tenho na sala. Certamente ele reprovaria a enxurrada de bets; preferiria, claro, o jogo do bicho feito no bloquinho encardido do apontador, com anelão no dedo, bermuda, chinelo de couro bicolor e a camisa aberta deixando à mostra a guia de São Jorge/Ogum, vermelha e branca.
Não sei como ele reagiria a certas modas de hoje, como as sobrancelhas feitas dos rapazes, os dentes cada vez mais brancos e as enormes e indecifráveis tatuagens que todos exibem. Talvez demorasse para entender o que aconteceu com os cílios e as unhas das moças, que cresceram desmedidamente desde que ele nos deixou, no fim do século passado. Certamente xingaria um desses ciclistas elétricos que nos surpreendem na calçada ou na contramão sem o menor constrangimento.
Diria que as moças eram mais voluptuosas no tempo dele – ainda não havia o mounjaro -, o que apenas se intuía, pois as roupas femininas, no tempo dele, não davam muita margem a adivinhações.
Exaltaria o som do vinil, a locução dos jogos no rádio, os comentários ferinos e demolidores do Saldanha, os escritores que batiam ponto nos jornais – Nélson Rodrigues, Drummond, Paulo Mendes Campos, Clarice… –, mas se surpreenderia ao ver, ainda em atividade, a Fernanda Montenegro e o Tony Tornado.
Eu redarguiria mostrando que hoje, qualquer um pode expor as suas opiniões na internet, pegando a esmo, alguns dos muitos jornalistas que migraram para o yotube. Talvez pulasse essa parte, e nem falasse com ele de internet, de redes sociais, de Inteligência artificial.
Melhor seria nem tocar em política com meu pai, um devoto admirador de Vargas e de Brizola. Evitaria que ele ouvisse, no rádio, as músicas de sucesso e esconderia, constrangido, os programas de Televisão que preenchem nossas tardes de domingo. Não permitiria de modo algum que ele visse dois minutos sequer de um jogo de futebol de agora. Ele certamente não entenderia esse negócio de o goleiro ter se tornado o armador do time.
Com o avanço da inteligência artificial e com os robôs cada vez mais desenvolvidos, não preciso ser nenhum Asimov para prever que, daqui a algumas décadas, se tanto, nossos atores, cantores e jogadores de futebol preferidos não serão mais de carne e osso, mas feitos de metal, plástico, circuitos eletrônicos e semicondutores. Aí sim, terá chegado a minha vez de dizer, melancolicamente:
– No meu tempo não era assim


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