[…] Após doze anos de construções à beira-mar, Copacabana/RJ pegamos uma nova empreitada na rua Dias da Rocha. Assim eu conheci meu primeiro e único amor. A construção dava para os fundos da casa onde ela trabalhava e morava. Ela demorou a perceber meus olhares. Eu no andaime, e ela na área de serviço. Um dia, ela pendurando roupas me viu pela primeira vez. Eu sorri, fui ignorado. Danada de orgulhosa. Vários meses se passaram, fingia não me ver. A obra terminaria em breve, não poderia ir embora sem falar com ela. Uma vez, nosso grupo almoçava na calçada, ela passou e não olhou para os lados. Bonita demais! Eu precisava resolver minha situação.
Após o almoço, nem trabalhei direito, só olhando para ver se ela iria no quintal. Assim que ela saiu, joguei meu chapéu! Ela olhou para cima, bem séria. Gritei que iria pegar mais tarde.
Demorou a atender a campainha, veio com o chapéu na mão e bem séria. Ela reparou que eu me arrumei, usei um perfume bom e convidei para dar um passeio na praça. Não aceitou, disse que tinha muito trabalho. Perguntei se no domingo à tarde seria bom. Concordou sem sorrir. Fechou o portão sem esperar eu falar mais. No dia seguinte, o encarregado brigou com meu grupo por causa da demora. Fazíamos a pintura da frente, para andar mais rápido, colocamos um latão de 60 litros de tinta no andaime.
Não sei dizer ao certo como aconteceu, meu amigo colocou o galão, o andaime fez um barulho estranho, a tábua partiu. Ele se pendurou na corda e eu caí do quarto andar, de pé, na calçada!
Todos gritaram! Quebrei as duas pernas. Desmaiei de tanta dor! Não tenho a noção do tempo em que permaneci deitado no chão. Ouvi a sirene da ambulância, abri os olhos e vi cortarem minha calça de brim, pois o inchaço aumentara, fechei os olhos. Multidão ao redor, ouvia pessoas falando sobre o milagre de eu estar vivo. No momento de me colocarem na maca, urrei com a dor! Antes de fecharem a porta da viatura, ela surgiu segurando a porta:
– Eu sou Nina, vou ao hospital para te visitar. – afirmou com um sorriso inesquecível e com os olhos marejados.
Foram visitas periódicas durante três meses. Em 1948, nos casamos no Paço Imperial/ DF [no Rio de Janeiro]. É minha linda esposa, mãe dos meus quatro filhos, que me chama de “meu rei”.
Ivone Rosa
Trecho do conto Do Porto ao Paço do coletivo: VEIAS DO NORDESTE, pág. 78
agosto/2026
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