Estou sentada em um pequeno banco, num bairro elevado de Barcelona, observando Shrek — o cachorro da minha irmã — correr de um lado para o outro com uma coragem que parece não caber em seu tamanho. Pequeno, inquieto e absolutamente destemido, ele tenta se meter com todos os cães que passam ao lado de seus donos. Não importa se são maiores, mais fortes ou intimidadoramente superiores. Ele simplesmente vai.
Quando vejo um desses cães grandes se aproximando, meu instinto entra em alerta. Levanto-me rapidamente e o pego no colo antes que seja tarde, antes que sua ousadia o coloque em risco. Mas, mesmo protegido em meus braços, ele continua se debatendo, insistindo em voltar ao chão, como se nada pudesse contê-lo. É impossível não se impressionar com tamanha coragem.
E, enquanto o observo, penso: há algo nele que nos falta — ou que, muitas vezes, esquecemos de acessar. Deveríamos ser assim também. Determinados. Ousados. Corajosos, sobretudo quando a vida nos desafia. Quando desejamos algo, mesmo diante de forças maiores que parecem prontas a nos engolir, precisamos avançar. Lutar com o que temos. Persistir.
Posso dizer, com verdade, que tudo o que conquistei até hoje nasceu dessa postura: coragem e ousadia. Mas, acima de tudo, fé. A confiança na graça do meu maior ajudador e protetor, o Mestre da minha vida: Jesus Cristo. É Ele quem me acolhe quando o perigo se aproxima, quem me sustenta quando sou pequena diante de gigantes. É Ele quem me guarda — e, por isso, sigo vencendo.
Daqui de cima, a cidade parece tranquila, quase silenciosa. Uma calmaria que engana. Basta descer para encontrar o ritmo real: pessoas apressadas, passos cruzando direções, vidas em constante movimento. Uns passeiam, outros compram, muitos correm contra o tempo para alcançar o metrô ou o ônibus. É um fluxo intenso, pulsante, inevitável.
E, de certa forma, essa também é a minha vida.
Quem me vê aqui, sentada com um caderno nas mãos, cuidando de um cachorro, talvez imagine que tudo em mim é calmo, simples, leve. Como a paisagem vista do alto. Mas quem desce comigo as escadas do meu mundo interior encontra outra realidade: há pressa, há luta, há dias densos e silenciosos que poucos enxergam.
Do alto, tudo parece fácil.
Mas é no centro da vida que as verdades se revelam.
Barcelona, 16 de setembro de 2006


Deixe um comentário