Vários pequenos cadáveres cobriam, novamente, o chão do escritório. Não os percebi logo. Tinha ido verificar o termômetro meteorológico. Entrei e saí do cômodo sem olhar para baixo. Minutos depois, meu marido me chamou. A urgência na voz antecipava problemas. Voltei. Ele me encarou e apontou para um lugar sob a bancada, próximo ao computador. Lá estavam: dezenas de formigas, muitas mortas, algumas agonizantes. De onde teriam vindo desta vez? Por que estariam nesse estado de inatividade?
Aqui, no bairro da Tijuca, zona norte do Rio, há uma infestação delas. Não das costumeiras formiguinhas de açúcar, mas das maiores, visíveis a olho nu com facilidade, com seu abdômen dilatado, pretas e rápidas. Entram pelas janelas, frestas das portas, passeiam sobre portais, paredes e pisos, em todos e quaisquer cômodos. Primeiro, pensamos que teriam construído uma colônia nos vasos de plantas. Porém, embora deixassem sua marca registrada sob a forma de folhas picotadas, pareciam vir de mais além, da rua.
Há anos, algumas fizeram morada no aparelho de ar condicionado. Lá, nunca mais aportaram, após a desinfecção com um remédio em spray. Devido à experiência anterior, quando as vemos em abundância, logo procuramos nas caixas de som, gavetas, fundos de armário e demais recantos escondidos, por vestígios de formigueiros clandestinos. Foi numa dessas investigações que demos com elas acomodadas sob um móvel da sala. Que correria! Esvaziamos e emborcamos o armário e despejamos inseticida, ao mesmo tempo em que tentávamos conter sua fuga desordenada. A operação foi um sucesso, apesar de ainda vermos uma ou outra solitária no apartamento durante dias.
A questão é que, passado um tempo após cada sumiço, volta a aumentar a população de formigas, rondando, ou carregando ovos e larvas. Isso dispara o sinal de alerta e a busca recomeça. Neste ano, já encontramos e combatemos quatro formigueiros. Sob o móvel da sala, numa máquina de costura de brinquedo, entre as placas eletrônicas de um toca-CD e, finalmente, no fim de semana passado, dentro de um amplificador. Sempre abrimos os locais, capturamos as formigas com a ajuda de um aspirador de pó e usamos inseticida para matá-las. Este último episódio nos surpreendeu pelo fato de a maioria estar agonizante. Talvez, as iscas que colocamos em diversos locais tenham, finalmente, dado resultado.
No entanto, e aí entra o sentimento ambíguo sobre o tema, não posso afiançar meu total conforto com a solução. É claro que os insetos causam transtornos. Ainda assim, exterminá-los de modo tão definitivo soa um pouco radical. Quero dizer, formigas são animais interessantes, com uma estrutura social e papéis dentro da comunidade. Fazem bem ao solo, ao deixá-lo mais aerado. Apesar de destruir plantas, quando estas são abundantes, se observa o equilíbrio entre predador e presa. A natureza estável e sã sempre parece sábia. Daí meu desconforto.
Sei que podem transmitir doenças, pois carregam fungos e bactérias. Nesse sentido, afastá-las e embarreirar seu avanço é acertado. Mas me lembro de ter ouvido que aparecem quando há solos compactados, açúcar e restos de comida espalhados. Estamos numa cidade grande, de ruas asfaltadas e muito lixo. Temos o privilégio de áreas verdes, contudo, não são suficientes para acomodar ambas as necessidades: nossas e delas. Fica, portanto, a dúvida: quais seriam as invasoras, as formigas ou as pessoas?


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