Ao sair do abafado metrô, algo atraiu a atenção do homem atarefado. Diariamente, após o empurra-empurra do vagão, ele corria por aquela estação. Já estava acostumado com seus múltiplos barulhos, porém o responsável pelo estranhamento não foi nenhum som e sim a sua falta. O característico relógio da estação, existente há tanto que ninguém mais lembrava de sua origem, havia parado.
Poucos perceberam e muito menos pararam por isso.
Na realidade, o homem foi o único.
— Era óbvio! — Pensou ele — Nem que todos os relógios do mundo parassem, seu mestre, o tempo, seria afetado.
Tic tac… Tic tac… Tic tac…
Esse som habita todos os seres humanos, a espécie condenada a saber seu fim e sentir sua aproximação. Os desconhecidos apertavam o passo na vã tentativa de se agarrar a migalhas e lutar contra o tempo.
Mal sabiam eles — Na verdade, sabiam muito bem, mas preferiam negar — como gastavam forças à toa.
— Talvez, eu devesse acabar como tudo de uma vez por todas. — A ideia invadiu o homem enquanto mirava os trilhos.
Assim, ele escaparia de tanta dor e de tanto sofrimento inútil que o aguardava. Além disso, daria menos trabalho ao tempo. O mestre poderia direcionar sua força corrosiva a outrem.
Era possível que tamanha angústia surgisse sem motivo?
Uma folha de jornal, suja e pisoteada, porém com a data ainda legivel revelou o culpado.
Junho chegou ao fim.
Essa época sempre despertou melancolia naquele homem. Metade do ano se foi junto de qualquer esperança. Nada havia mudado. O mesmo vazio ainda preenchia seu peito. A ilusão de melhora, nutrida no ano novo, foi desfeita.
Entretanto, ninguém precisava se preocupar. Foi um mero lapso reflexivo… Em seguida, a rotina tomaria conta do atarefado novamente até não soprar espaço para tais pensamentos.
Instagram do autor: @umautorautista


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