Existem dias em que o afeto pesa mais que o peito,
e a “irmandade” parece um caminho estreito;
um campo florido cercado de espinhos,
um mapa sem legenda indicando destinos.
Há quem chegue sorrindo, prometendo abrigo,
e eu, sem perceber, já os levo comigo;
guardo seus risos, seus medos, seus nomes,
como quem recolhe estrelas e enfrenta as fomes.
Talvez esse seja o erro que tantos apontam:
sentir demais enquanto os outros desmontam;
oferecer oceanos a quem pede um copo,
erguer catedrais onde queriam um galpão oco.
Dizem que a intensidade assusta, transborda,
que bate tão forte que nenhuma porta acorda;
contudo, nunca entendi por que sentir é excesso,
se o mundo já vive de tão pouco apreço.
Por que seria falha amar sem medida?
Por que esconder a chama para caber na vida?
Por que aparar os galhos daquilo que floresce,
se é justamente o afeto que o inverno aquece?
Carrego tempestades em cada silêncio,
universos inteiros em um simples pensamento;
e, em alguns momentos, me culpo por ser desse jeito,
como se sentir profundo fosse algum defeito.
Enquanto isso, as pessoas seguem estranhas,
erguendo muralhas, cavando montanhas;
aproximam-se quando o frio lhes alcança,
todavia fogem depressa diante da esperança.
Dizem “fique”, mas recuam um passo;
pedem verdade, mas temem o abraço;
querem ser vistas, mas fecham as cortinas,
como barcos chamando o porto e cortando as amarras da marina.
E eu nunca sei qual palavra escolher,
qual parte de mim posso oferecer;
se devo ser rio, se devo ser ponte,
ou apenas paisagem perdida no horizonte.
Há um cansaço escondido entre os gestos,
uma exaustão feita de cuidados modestos;
andar sobre ovos virou rotina constante,
como quem dança vendada à beira do instante.
Penso demais antes de cada frase,
como quem evita transformar paz em impasse;
reviso sorrisos, releio expressões,
tentando prever invisíveis explosões.
E dói não saber onde termina o carinho
e onde começa o perigo do caminho;
dói medir palavras, conter movimentos,
domesticar os próprios sentimentos.
Porque viver assim é existir em alerta,
com a alma e a porta entreabertas;
é temer que qualquer passo, por mais delicado,
seja visto como exagero ou pecado.
Às vezes queria ser melhor, eu confesso,
menos confusa diante do que atravesso;
mais leve, mais sábia, mais fácil de entender,
mais hábil na arte difícil de viver.
Queria saber permanecer sem prender,
amar sem temer, partir sem morrer;
saber exatamente o que cada olhar diz,
e encontrar serenidade onde nunca a fiz.
Porém sou feita de perguntas sem resposta,
de cartas escritas e jamais expostas;
de versos guardados no fundo da gaveta,
de uma esperança teimosa, discreta e inquieta.
E embora eu escreva, embora eu componha,
embora a poesia me vista e me proponha
mil formas distintas de nomear a emoção,
sempre sobra um abismo entre a palavra e o coração.
Pois nenhum poema comporta a ausência,
nenhuma metáfora traduz a permanência;
não há rima capaz de medir a saudade,
nem estrofe que alcance toda a verdade.
As palavras são barcos pequenos demais
para mares que crescem e não voltam jamais;
são retratos imperfeitos de uma vastidão,
ecos distantes daquilo que pulsa na mão.
Então sigo juntando sílabas ao vento,
tentando transformar silêncio em entendimento;
ainda assim, no fundo, reconheço o limite que existe
entre o que é dito e o que realmente persiste.
Em certas situações terei que concordar com o Sufjan Stevens:
“(…) words are futile devices”
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