No fim da manhã de segunda-feira, fazia um pouco mais de vinte e três graus. Meu apartamento, no térreo, é escuro e tem estado até mais frio do que o exterior. Então, é sempre bom conferir o termômetro e olhar pela janela, a fim de escolher o vestuário apropriado.
Ao botar os pés fora do edifício, tive uma grata surpresa. Primeiro, havia sol e este aquecia o suficiente para prescindir de casaco. Em segundo lugar, o céu estava lindamente azul. Não um azul qualquer, mas aquele denso e luminoso, próprio do outono.
Podemos diferenciar o tom que colore o firmamento nas várias estações. No verão e na primavera, devido à intensidade da luz solar, o azul se torna mais pálido, clareado, enquanto, no inverno, assume tons mais cinzentos e desbotados. Para mim, nada como o profundo azul outonal, acompanhado do ar fresco e agradável. Nem um frio congelante (apesar de eu admitir ser algo raro aqui no Rio de Janeiro), nem um calor angustiante, daqueles que exaurem todas as nossas forças.
Esta combinação de céu azul, friozinho e sol me fez recordar os dias invernais madrilenhos, na época em que estudei por lá, há quase quarenta anos. O clima de Madri é seco. Quando não havia chuva ou neve, o céu mantinha essa coloração, semelhante à do nosso outono, mesmo em meses de inverno. O problema é que o sol parecia frio. Não aquecia.
Como disse, aprecio temperaturas baixas, entre os vinte e dois e vinte e cinco graus. Porém, quando falamos de algo abaixo dos dez graus, a coisa muda de figura. Óbvio que havia agasalhos e aquecimento na Espanha. O chato era minha metamorfose em gente-cebola. Eram tantas camadas de roupa, que coisas simples do cotidiano ganhavam complexidade irritante. A bolsa escorregava do ombro. Ir ao banheiro se tornava uma odisseia. Ao entrar nos ambientes fechados e aquecidos, era preciso tirar o casaco e aguentar as demais peças sobrepostas do vestuário que não podiam ser retiradas e se mantinham ali, aquecendo você além do desejável. Isso sem contar o volume que adquiríamos. A rotina ficava tão incômoda, que me lembro de comemorar o dia em que, chegando a primavera, o termômetro acusou vinte e seis graus e pude vestir um vestido leve de malha.
As mudanças climáticas nos têm imposto condições inesperadas e extremas. Culpa nossa, claro. Então, ao conseguirmos vivenciar uma atmosfera familiar e positiva, reconhecemos e relembramos sensações, muitas das quais nostálgicas e aprazíveis. São momentos que vale a pena reter e saborear, como o azulado do céu ou o sol (nem tão) frio.
REITERANDO O ALERTA: Esta crônica ainda é de autoria humana!


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