Considero a mente humana fascinante. Um dos aspectos que me impressiona é nossa capacidade de preencher lacunas. Ao vermos uma mancha difusa num piso ou parede, um desenho incompleto, ou uma sequência de caracteres, temos a tendência a completá-los para lhes atribuir um sentido. Ao passar por uma placa de carro com as letras LVE, por exemplo, podemos ler “lave”, “leve”, “love”, “live”, segundo nossa motivação do momento, pensamentos fugazes e vivências trazidas à superfície da memória. Fazemos isso quase inconscientemente. Não importa se placas de veículos não foram feitas para terem nomes: a coisa apenas brota das cabeças criativas.
Tal habilidade pode ser muito útil para decifrar um texto fragmentado, interpretar símbolos imagéticos de cartazes e manuais, entender uma informação truncada recebida de alguém. A questão se complica, contudo, quando tal processo cria formas inusitadas, bizarras, gerando o oposto do efeito desejado. Ou seja, levando à confusão.
Maio é significativo para mim, pois é o mês do nascimento e morte de minha mãe. Pensando nela nos últimos dias, lembrei de um episódio que me contou de sua juventude, relacionado a essa propriedade mental humana de completar vazios.
Se bem me recordo, ela ia num lotação, em direção à sua casa, numa região suburbana, quase rural, do Rio de Janeiro da primeira metade do século XX, apreciando a paisagem pela janela. De repente, fixou-se no letreiro de um grande galpão. A condução ia rápido. Assim, ela não conseguiu fazer uma leitura completa do enunciado. Juntando, porém, o que lhe foi possível captar e preenchendo o resto, chegou a uma frase terrível. Sentiu-se perseguida pela sensação de angústia e desamparo, por vários dias, algo que chegou a atrapalhar seu sono.
A mensagem horripilante?… “Faz-se enterro. Mata-se aqui.”
Claro está que nunca foi isso o escrito nos dizeres, mas, simplesmente: “Faz-se aterro. Trata-se aqui.” Em todo o caso, o incidente ilustra bem tanto a tal habilidade, quanto possíveis implicações de erros dela derivados. Em tempos de fake news, IA e proliferação de notícias manipuladas, fico imaginando como se podem repetir e espalhar algumas dessas leituras macabras.
ALERTA IMPORTANTE: Recentemente, li um artigo a respeito de autores cujos textos passaram a receber, de propósito, incorreções para reforçar terem sido escritos por humanos e não por IA. Deixo, então, o aviso: esta crônica foi criada e redigida, na íntegra, por uma pessoa de carne, osso e ideias. Não houve IA envolvida, nem ninguém sofreu danos ou riscos durante o processo criativo.


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