– Quando eu for feliz, vocês não vão ser mais nada!
A ameaça foi dita por um homem em situação de rua, de cócoras, encostado num prédio, para interlocutores imaginários. A frase grudou no meu ouvido, e eu a trouxe pra casa, onde a digitei ali em cima, nesta página.
Olhei pra ela, muitas vezes ao longo daquele nefasto dia, enquanto fazia as tarefas do lar, sem conseguir decifrá-la. Tive vontade de voltar pra rua, procurar o dono dela e devolvê-la:
– Toma a tua frase, guarda ela aí contigo, que a mim ela não fez bem, não.
Ou pedir a ele explicações.
– Como assim? Você acha que ainda será feliz algum dia? E quem são esses que não serão mais nada quando isso acontecer?
Perambulei pelas calçadas do meu bairro, dias e dias, e não encontrei mais o dono do vaticínio que me impregnou.
Ficava me perguntando: será que a felicidade dele depende do fim de alguém? Mas de quem? De mim, de todos nós, da sociedade, da humanidade?
Lembro bem como foi: ele proferiu a frase em voz baixa, sílaba por sílaba, de maneira segura, firme, olhos nos olhos de sei lá quem. Disparou-a sem pressa, impassível, como quem atira várias vezes na vítima, sem pressa de acabar com ela.
Aquela frase era, enfim, uma arma apontada para quem passasse naquele instante, em frente àquele homem, naquele maldito lugar. Ele era um lobo solitário que atirava seus impropérios a esmo, com sua metralhadora de infortúnios e maus tratos carregadíssima. Eu fui um dos alvejados e levei no corpo e na alma todas os significantes e significados da rajada inclemente que ele descarregou impiedosamente na minha direção.
– Quando eu for feliz, vocês não vão ser mais nada!, disse o homem na rua, mirando não sei quem, mas me atingindo profundamente. Os projéteis atravessaram os prédios, os carros, as ruas, os postes e as calçadas, sem sequer arranhá-los, mas me acertaram em cheio! Na hora, levei as mãos ao peito e à cabeça, como se tivesse sido atingido por dezenas de estilhaços de uma explosão.
Desde aquele maldito dia, tenho estado assim, acabrunhado, pensando no peso de saber que a felicidade de outra pessoa depende da minha e de mim. De que o que eu sou faz outra pessoa infeliz. De que, talvez, neste mundo, só um de nós, ou eu ou aquele homem, tem direito à felicidade. A frase do homem de cócoras encostado num prédio resumiu o mundo em que vivemos, ele e eu, em que só alguns têm direito à felicidade; os demais não serão nem terão nada.
Será isso viver?


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