Em 23 de abril, se comemorou o Dia Mundial do Livro. A data foi escolhida por ter sido quando, em 1616, faleceram três grandes escritores: Cervantes, Shakespeare e Inca Garcilaso de la Vega. A relação entre leitura, literatura, informação e livros é inequívoca e relevante. As sociedades letradas devem muito, tanto à tecnologia da escrita em si, quanto à invenção da imprensa, no que toca ao registro, conservação e difusão de bens culturais diversos. É um tema bastante debatido, portanto, me permito não o abordar sob tal perspectiva. Gostaria, contudo, de compartilhar um pensamento que tive faz uma semana.
Nos últimos tempos, têm sido recorrentes as notícias a respeito da inteligência artificial. Não pretendo negar seus benefícios, no entanto, seu uso vem gerando uma série de preocupações. Algumas são de ordem trabalhista, outras éticas, umas econômicas, ecológicas, ou educacionais. Entre as questões levantadas está o fato de, com o aumento da produção e circulação de textos e imagens gerados por IA, estas estarem sendo alimentadas e treinadas com material feito pelas próprias IA.
O primeiro problema advém de incorreções ou inverdades presentes nessas criações. O segundo se refere a uma padronização paulatina da linguagem. Ou seja, tais ocorrências, por um lado, multiplicariam erros, levando à sua naturalização ou a criar supostas novas verdades. Por outro, apagariam a variedade na expressão e comunicação humanas.
Ao ler sobre a proliferação massiva dos produtos de IA e sobre o impacto em seu aprendizado, me questionei: em que confiar a partir de agora? Quando a internet foi aberta ao grande público, criou-se um canal de informação quase ilimitado. Passamos a ter contato com multiplicidade de imagens, vídeos, textos escritos, áudios, em diferentes línguas, de lugares e épocas diversos, grande parte gratuita. Antes, para fazer uma pesquisa, por exemplo, era necessário comprar livros ou consultá-los numa biblioteca. A partir dessa facilitação de acesso, tudo parecia estar à distância de um toque, sem precisarmos sair de casa.
Claro, havia documentos falsos ou errôneos, no entanto, era possível verificar sua autenticidade mais facilmente. Tínhamos a segurança de sites universitários, escolares ou governamentais, cujas fontes eram confiáveis e serviam como validação de dados. Hoje, porém, mesmo textos em páginas institucionais e de educação podem ter sido redigidos com auxílio de IA, sem um aviso a respeito. Supomos haver cuidado por parte dos autores quanto aos conteúdos, mas não podemos garantir a ausência de falhas.
E o que tudo isso tem a ver com o Dia do Livro? Como eu dizia, esse cenário de incerteza informativa me fez refletir que, talvez, a solução seja um retrocesso estratégico. Voltar a consultar publicações impressas de fontes avalizadas, inclusive, anteriores à expansão das IA, seria um caminho. Vamos redescobrir o prazer de manusear livros, jornais, revistas e pesquisar à moda antiga? Que tal?


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