A neblina típica do outono, tomava conta de toda a extensão da rua quando saí, às seis e trinta da manhã, para minha caminhada de rotina. Como era feriado, no meio da semana, o trajeto que eu faço estava mais deserto.
No quarteirão seguinte, vi um senhorzinho conhecido do local. Nunca soube seu nome tampouco conversamos, mas o admirava porque normalmente voltava carregando o pão e, de vez em quando, um jornal. Sou simpática aos bons leitores!
Neste dia, ele me abordou para perguntar sobre a banca de jornal do bairro vizinho. Disse que a banca do nosso bairro permanecera fechada por conta de furtos durante a madrugada. Olhei em direção à banca em frente à praça. Antes de eu argumentar algo, o idoso afirmou não vender mais jornais ali.
Incrível, não é mesmo?! Uma banca de jornal vende: cigarros, fósforos, isqueiros, biscoitos, balas, bonés, bijuterias, doces, capas para celulares, incensos, pequenos brinquedos, exceto jornais! – indignada, pensei sem comentar.
Comovida com a situação, pedi que me esperasse sentado no banco da praça e com passos rápidos, fui até o outro bairro e encontrei outra banca de jornal que não vendia jornais! O que está acontecendo? Ninguém mais lê jornal? Por quê?
Será a era digital devastando os bons leitores apenas com as imagens?!
Inconformada, continuei a minha saga e finalmente encontrei! Não conseguia me lembrar o nome do jornal, decidi comprar os três títulos diferentes que havia na banca. Certamente, ele ficará feliz.
O retorno foi mais curto, leve e mais alegre! Pude vê-lo à distância conversando com outro idoso sentadinho na praça. Entreguei os três jornais em uma sacola. O vovozinho indagou: “Isso tudo é pra mim?!”
Acenei a cabeça afirmando e sorrindo simultaneamente.
“Que maravilha! Não vou precisar comprar jornal por três meses!”
Estarrecida, perguntei: o senhor lê um jornal por mês?!
“Não, não leio não! Vai tudo pra minha criação! É que eu sou muito limpinho, num sabe?! Eu lavo o cercadinho toda semana e forro com jornal para os leitõezinhos dormirem!” – -afirmou, rindo e orgulhoso.
Engessei o meu sorriso e voltei para casa.
Ivone Rosa
@profaivonerosa
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