Vez ou outra a gente ouve a expressão: “fulano nasceu de novo”, usada após um evento que provocaria a morte de alguém, mas ao qual, contra todas as probabilidades, a pessoa sobreviveu. Penso ser possível tirar um aprendizado dessas experiências, não só para quem escapa da fatalidade, como para aqueles cientes do caso. Não precisa ser nada muito elaborado, apenas, talvez, a valorização da vida em si. Não tive a oportunidade de conhecer muitos desses afortunados, porém, recordo uma surpreendente história ouvida quando criança.
Aos nove anos, me encantei com o violão e meus pais me presentearam um de aniversário. Só faltava aprender a tocá-lo. Naquela época, não havia internet, nem cursos on-line. No entanto, na loja de música da rua da Carioca, Centro do Rio, o lojista cedia uma pequena sala a um professor. Lá, este recebia seus alunos, os quais, naturalmente, compravam, no estabelecimento hoje fechado, cadernos de música, cordas, paleta, diapasão e todo o necessário. Um arranjo conveniente.
Por dois anos, numa manhã a cada semana, minha mãe me levava para a aula do professor Chiquinho. Ele deveria ter, ao menos, uns quarenta e poucos anos, pelas minhas contas. Era baixo, bem magro, muito simpático e paciente. Além dos exercícios e instruções, também conversávamos bastante. Foi num desses papos que nos confidenciou ser um homem morto.
O moço Chiquinho era um boêmio. Frequentava a Lapa e, já naqueles tempos, vivia acompanhado de seu violão. Quando o Brasil entrou na Segunda Guerra Mundial, os jovens foram convocados para a Força Expedicionária Brasileira e ele não foi exceção. Apresentou-se, treinou e estava na expectativa de quando iriam para a Europa.
Aconteceu, um dia, de Francisco ter folga e aproveitar a oportunidade numa de suas noitadas de música. Tocou violão a noite inteira. Ao dar por si de manhã, voltou ao quartel. Atrasou-se, contudo, para o embarque, perdendo o navio.
Aí entra o ditado com o qual abri a crônica. Caso tudo tivesse dado certo, ele teria sido considerado um desertor e passaria bom período na cadeia. Não obstante, para sua sorte e azar dos companheiros, o navio foi bombardeado e ele, declarado baixa de guerra. Então, eu tinha, por assim dizer, um professor fantasma. Viva a boemia!


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