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Quo vadis?

A tecnologia digital vem, cada vez mais, ocupando lugar na mídia. Além da preocupação com os impactos das redes sociais em crianças e jovens, da nova corrida espacial, dos robôs e da expansão da IA, se fala de leis regulatórias em diversos países.

O tema da inteligência artificial é uma questão polêmica, indo desde a adesão entusiástica à demonização. Não importa, contudo, o quanto se ponham reparos ao seu avanço: salvo um desastre ou surgimento de algo melhor, ela veio para ficar. O ponto, então, seriam as implicações e limites de sua utilização. De nada vale apenas ressaltar vantagens e inevitabilidade, sem lembrar e avaliar criticamente os ônus.

Um dos fortes argumentos a seu favor é otimizar tarefas mecânicas, deixando aos humanos espaço para as criativas, reflexivas, de análise e tomada de decisão. Isso era uma das premissas da revolução industrial. Mas o resultado foi, por um lado, desemprego massivo e, por outro, acréscimo de novas tarefas para ocupar o recém conquistado tempo ocioso.

A atividade das IA demanda enormes fazendas de processamento. Requer, assim, chips em profusão, HDs e muita energia. As peças começam a faltar para outros aparelhos, inflacionando-os, e a geração energética é um problema adicional. No mundo moderno, dependemos totalmente da eletricidade e sua produção causa impactos ambientais mesmo quando se trata de energia limpa. O cobertor é curto e esse novo contexto intensificará condições que estão levando o planeta ao colapso.

Sobre o mecanismo de funcionamento das IA, até agora, elas são alimentadas com modelos preexistentes. Buscam em bancos de dados, compilam e oferecem respostas aos parâmetros dados pelo usuário. Não criam. Montam quebra-cabeças a partir do trabalho de outros. Se tais outros são gente, estão sendo espoliados em sua produção intelectual. Se as compilações são fruto de montagens anteriores por IA, temos uma replicação de constructos, os quais, nem sempre, são precisos ou corretos. Claro, caberia às pessoas avaliar os materiais devolvidos. Todavia, me pergunto até quando conseguiremos diferenciar as fontes? Se os modelos se tornarem mais e mais oriundos de IA, logo, teríamos o risco de nossa perspectiva ser padronizada. Li, por exemplo, sobre um estudo cujo resultado apontava uma preferência dos leitores analisados por obras escritas por IA.

Preocupa-me a desumanização. Na medida em que naturalizamos e generalizamos o uso de IA, abandonamos as tarefas escolhidas para delegar. Vejo um aumento gradual no escopo dessa escolha, incluindo, também, ações dos campos científico, artístico e criativo. A memória vai perdendo protagonismo, bem como, às vezes, a prática de busca, seleção e elaboração. Dada a facilidade em montar produtos de resultado atraente, é tentador transferir atribuições.

Não cabe fugir, negar ou execrar essa realidade. Questionar sua naturalização, porém, faz parte de seguirmos sendo humanos. Há de se considerar, ademais, que IA não é uma ferramenta como tantas outras. Possui certa autonomia e protagonismo nas ações, mimetiza nosso pensar (daí o termo “inteligência”). Seria ingenuidade crer que isso não faz diferença ao tomá-la como instrumento. Fica, então, a pergunta: para onde vamos?


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2 respostas a “Quo vadis?”

  1. Avatar de Will
    Will

    Uma das razões que eu usava o perplexity era que ele mostrava as fontes. No final das contas, esses LLMs não são AGI e, ao meu ver, não mimetizam o nosso pensar.

    A ferramenta prevê a próxima palavra, por um modelo estatístico, com uma margem de erro. Se ele faz isso 95% do tempo corretamente, então você acaba aceitando o resultado.

    No que se refere a procurar informação, não mudou muita coisa. Antes eu usava SEO pra procurar algo e hoje é linguagem natural, mas os resultados dos sites normalmente são os mesmos de uma busca no google.

    Me preocupo mais com uns vídeos que eu vi de umas empresas usando machine learning pra treinar robôs armados. Tem vídeos mostrando pessoas ensinando artes marciais e montando metralhadoras em humanóides.

    É meio macabro pois você sabe que não faria sentido criar esses robôs se não fosse pra outra coisa que não matar humanos. Já existem drones militares que cumprem um papel parecido, mas dar autonomia pra robôs humanóides matarem pessoas me parece um outro nível de desumanização. Quando estiverem andando pelas ruas, armados, acho que vai ser um momento bem difícil pra um ser humano. Às vezes é melhor não dar ficção pra qualquer pessoa. A maioria das coisas ruins que acontecem hoje ou que prometem acontecer no futuro saiu de algum cara criativo. A vida imita a arte e a arte dos que vieram antes se torna no pesadelo de quem vem depois.

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    1. Avatar de Cristina Vergnano

      De fato, Will,as IA ainda não chegaram no ponto de autonomia propagandeada e são modelos estatísticos. Mas acho que é uma meta.Concordo que o uso bélico dessas máquinas é assustador, inclusive porque, ao não contar com baixas do seu lado do conflito, os governos terão menos pudor em atacar.Mas a questão que levantei da desumanização também me parece algo real.
      Quanto ao papel “nefasto” das artes como fomentadoras de ideias perigosas, não sei se concordo integralmente com você. Como tudo na sociedade, são instâncias que se retroalimentam: arte e ciência. Artistas possuem uma certa sensibilidade que lhes permite antever alguns processos, como acontece com pensadores e filósofos. Muito na ficção científica, aliás, é análise e crítica do nosso presente travestido em outros mundos e épocas.
      Obrigada pela sua leitura atenta e comentários. Abraço.

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Criada em 2020 pelo professor e poeta Renato Cardoso, a Revista Entre Poetas & Poesias é um periódico digital dedicado à valorização da literatura e da arte em suas múltiplas expressões. Mais que uma revista, é um espaço de conexão entre leitores e autores, entre a sensibilidade poética e a reflexão cotidiana.

Registrada sob o ISSN 2764-2402, a revista é totalmente eletrônica e acessível, com publicações regulares que abrangem poesia escrita e falada, crônicas, ensaios, entrevistas, ilustrações e outras formas de expressão artística. Seu objetivo é tornar a arte acessível, difundindo-a por todo o Brasil e além de suas fronteiras.

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